segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escutar, refletir e falar: a arte de praticar medicina

Na clínica de Augusto Faria de Barros não há computadores nem marcações de consulta. Também não há secretária nem uma cadeira para a única funcionária. Esta simplesmente se senta com os pacientes e anota, mentalmente, os problemas e a ordem de chegada de cada um.


É uma rotina que se repete há várias décadas nesta clínica privada, localizada no centro da cidade de Amarante. Por detrás da porta de vidro fosco do consultório senta-se o doutor Augusto Faria de Barros, oitenta e nove anos de idade e médico de clínica geral há mais de sessenta.

Augusto Faria Barros, 89 anos de idade ainda pratica medicina

Diz que ainda pratica medicina porque faz o que gosta e pelos desafios com que se depara. Está-lhe no sangue e na sua capacidade de resolver problemas de forma frontal e com uma dose de humildade. A mesma formula com que encara a vida há quase nove décadas.

“Gosto do que faço e tento levar uma vida equilibrada e saudável: pratico desporto - vou à caça – faço o trajeto a pé de casa ao escritório (duas vezes por dia) e observo a dieta. Sou religioso, rezo o terço todas as noites e tento levar uma vida pautada pela norma dos pensamentos positivos. Se esbarrar um carro, não fico preso em sentimentos de aborrecimento pelo acidente. Prefiro antes pensar na alegria que vou ter no dia em que o carro regressar, arranjado”, explica.

Escutar, refletir: a arte de praticar medicina

Natural do Porto, Augusto Barros licenciou-se em medicina geral pela Universidade de Coimbra aos vinte e quatro anos de idade. Passou por vários hospitais e clínicas privadas do país e instalou-se em Amarante pouco depois do seu casamento, aos vinte e seis. 

Aprendeu, cedo na vida, que as artes de escutar e refletir são as melhores qualidades de um médico e mesmo dum homem, particularmente naquelas alturas em que é a voz da sua própria consciência quem lhe fala.

No seu estilo peculiar, conta que aos 83 anos de idade teve que refletir profundamente sobre os seus hábitos de condução após um episódio desagradável nas margens do Rio Douro.

“Ia a ultrapassar um indivíduo já perto de uma curva quando me apareceu um camião à frente. Tive que travar a fundo para evitar o embate e apesar de nada mais ter acontecido, parei na berma da estrada e estive uns momentos a refletir. Desde então, passei a conduzir com mais calma”, conta.

Escutar é o segredo do negócio mas é preciso acompanhar a arte da escuta com a arte da fala. E aqui, nesta última, Augusto Barros tem uma particularidade que o destaca dos demais: trata a maioria dos pacientes por tu.

“Olha, é um dos meus defeitos. Quando pratiquei no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, havia um hábito de tratar os pacientes por tu. Para mim, tratar as pessoas por tu não significa assumir uma posição de superioridade, antes pelo contrário. É uma questão de amizade. Sinto-me amigo das pessoas. Mas atenção, eu não trato todos por tu”, avisa.

A crise vai ao consultório

Há grandes avanços na área da saúde em Portugal, concorda o médico de clínica geral de Amarante. Contudo, na área do diagnóstico acha que em pouco ou nada se avançou.

Muitos dos pacientes consultam-no para obter uma segunda opinião, algo que Augusto Barros vê como consequência dum sistema de saúde público em que os médicos são obrigados a “despachar”, diariamente e o mais rápido possível, centenas de clientes.

Mais preocupante, contudo, é o número crescente de casos de problemas do foro psicológico que passam pelas portas de vidro fosco do doutor Barros. Em troca de ideias com outros médicos e especialistas, conclui que o aumento é generalizado e que tem na sua raiz a atual crise financeira.

Aliás, a própria crise é o convidado inesperado que se senta, muitas vezes, na sua marquesa. Ao longo dos últimos dois, três anos tem aumentado o número de clientes com poucos ou nenhuns recursos financeiros. Já houve mesmo quem lhe fizesse um pedido de ajuda ou lhe ofereça outros bens em troca por uma consulta.

“Tive uma pessoa, que eu achava estar bem de finanças, que me disse que a única coisa que me podia dar era um abraço, porque não tinha mais nada. Fiquei muito comovido. Há casos em que não levo nada pela consulta, porque vejo que as pessoas... não podem mesmo”, conclui, emocionado.

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