terça-feira, 5 de junho de 2012

Pum, pum, pum e pum: uma história de bombos e tradição em Amarante


No concelho de Amarante há doze grupos de bombos tradicionais popularmente conhecidos como Zés-Pereiras. Um deles, integralmente feminino, cumpre com dedicação e grande esforço o legado musical enraizado desde a Idade Média na cultura popular portuguesa. É um fenómeno cultural pouco estudado mas muito apreciado por um povo que não larga mão da tradição.

Aquela moça alta olha para o velho relógio da torre do mosteiro de S. Gonçalo e rola os olhos para trás em desespero. Ainda falta uma hora para o fim e com num gesto que exala determinação, dá dois passos em frente, olhos nos olhos das suas companheiras. Pendurado ao seu peito está um enorme bombo tradicional onde começa a malhar, rápida e furiosamente.

O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.

Maratona de três horas põe à prova a estamina física e mental
É a algazarra total no centro da cidade de Amarante no primeiro fim de semana de junho. São duas da manhã na Praça da República mas hoje, na primeira de três noites das festas da cidade, não há garantias de sono tranquilo para os residentes da zona histórica.

Pelo menos por mais umas horas. É que, em cumprimento da antiga tradição de honrar São Gonçalo, padroeiro da cidade, seis grupos de bombos tradicionais entraram em despique pouco depois do fogo-de-artifício da meia-noite. E nenhum deles está disposto a ser o primeiro a desistir. Há honra e orgulho a salvaguardar mas também já há quem desmaie de cansaço.

Entre as Rosas de Santa Maria, o primeiro grupo de bombos amarantino constituído integralmente por mulheres, ninguém cai para o lado ou desiste. Num canto da praça em frente ao Mosteiro de S. Gonçalo,  tocam de uma forma mais suave do que os seus competidores masculinos. A estratégia resulta, pois às três da manhã estão todas presentes quando vários homens já tinham saído de cena. Um, pelo menos, de ambulância.

No centro do círculo das vinte Rosas está a estudante universitária Eugénia Magalhães, de 22 anos, tocadora de caixa e uma das fundadoras do grupo. É a terceira na linha de gerações de tocadores de bombos da freguesia de Jazente onde, há cerca de 60 anos, o avô Abel fundou o primeiro grupo de Zés-Pereiras de Amarante.

Eugénia Magalhães e as Rosas de St. Maria
“Desde muito pequena que ando nos bombos, são as minhas férias de verão. Nasci no meio disto  tudo”, explica a jovem licenciada em Solicitadoria. “Mesmo em bebé, eu acompanhava a família nas deslocações por todo o país. Aliás, foi em Peniche que deixei de gatinhar e dei os meus primeiros passos durante uma atuação nas festas daquela cidade”.

Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.


E porquê uma formação só de mulheres? “O grupo surgiu com naturalidade porque somos uma freguesia onde há uma forte tradição de tocadores de bombos. As crianças, incluindo raparigas, aprendem desde  novas com os pais, muitos deles pertencentes a um dos vários grupos que temos em Jazente”, explica.
A prata da casa

Apesar de existirem registos com mais de cem anos sobre a presença de grupos de Zés-Pereiras nas festas a São Gonçalo só em 1949 é que surge o primeiro conjunto local pela mão de Abel Ribeiro, avô de Eugénia.

A partir daí, o número de grupos de bombos, uma das tradições musicais populares mais antigas a norte do rio Mondego, aumentou ao longo dos anos em Amarante. Hoje, só naquela pequena freguesia aninhada entre a serra da Aboboreira e o rio Ovelha, há três.

Em todo o concelho existem doze grupos que todos os anos percorrem Portugal de lés-a-lés em nome da música popular portuguesa. E quase todos traçam as suas origens ao primeiro formado por Abel Ribeiro.

Bombos "Amigos da Borga", Lufrei
“De uma forma ou outra, praticamente todos os mestres que vão tocar hoje nas festas do junho começaram as suas carreiras connosco, em Jazente”, explica Eugénia Magalhães.

Tradição medieval

Embora a tradição de tocadores de bombos em festas e romarias se perca na memória e nos poucos registos escritos sobre o tema, o certo é que os Zés Pereiras e os seus ruidosos bombos são parte integral de qualquer celebração religiosa ou civil.

A sua origem (também conhecidos como Zambumbos) tem sido pouco estudada mas há referências que aparecem, pontualmente, em trabalhos sobre a música popular portuguesa.

Zés-Pereiras de S. Torcato, Guimarães, em festa religiosa no séc. XIX - DR

Acredita-se, por exemplo, que a génese dos atuais grupos de bombos está ligada ao fenómeno das “bandas-de-pífaro” do século XIX, formação musical muito popular na Europa na época e cujo repertório inicial estava ligado, essencialmente, ao das bandas militares.

Contudo, há indícios de que a história deste tipo de expressão musical popular pode ir mais atrás, até à Idade Média.

“Há, sem dúvida, uma ligação entre os atuais Zés-Pereiras, as charangas medievais e o conceito de música alta que em Portugal sobreviveu às alterações dos gostos musicais do resto da Europa”, explica António Patrício, autor e historiador da região do Baixo Tâmega.

O estilo, em que grupos de charameleiros tocavam instrumentos rudimentares (trompetas, tambores, sacabuxas, charamelas e flautas) ganhou a designação pela sua alta sonoridade, uma característica ideal para os grandes e pequenos eventos ao ar livre.

Considerados primitivos e de mais fácil execução, os instrumentos, e os sons que produziam, eram tidos como o oposto da música baixa, um estilo mais suave e de fraca amplitude sonora considerado mais elegante, próprio de gente fina e com bom gosto.

“A música alta era, e ainda é, o estilo musical do povo porque os instrumentos são fabricados de materiais que estão à mão. Peles e madeira, essencialmente. São fáceis de aprender e de utilizar e, portanto, sobreviveram até aos dias de hoje”, explica o autor amarantino.

E o futuro?

Neste verão, e tal como tem acontecido nos últimos 60 anos, não há descanso para os Zambumbos de Amarante. O de Jazente, com cerca de 50 elementos, tem todos os fins-de-semana ocupados até setembro.

“Vamos a Peniche, a Viana, Bilhó (Vila Real), Alentejo, Algarve e, no passado, já fomos chamados a França, Brasil e Espanha”, diz Eugénia Magalhães. “Aliás notamos que temos mais atuações este ano”, sublinha.

E afasta qualquer dúvida sobre a falta de participação dos jovens nos grupos de bombos da região: “A tradição é muito forte e sempre houve uma atração pela atividade por parte dos mais jovens. Posso dizer que, pelo menos da minha parte, e mesmo que me tenha licenciado, que nunca irei desistir dos bombos. Esta é a minha vida”.