quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Opinião: Traz ao Dono


"A legislação (de proteção de animais) é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido."

Violeta era a mãe de Flausina que teve como únicas crias Zola, Mondego, Tim e o Matulas. Houve ainda o feroz mas inteligente Bobby e antes deles todos, o Matateu, em cujo dorso andei às cavalitas até uma altura em que, sobressaltado por não me lembro bem o quê ou quem, me arremessou contra a esquina de um muro. Acabei o dia no hospital de Santa Maria, em Lisboa, a levar muitos, muitos pontos na testa.

Anos mais tarde e a milhares de quilómetros de distância, houve outra Flausina mas em forma de gato. Coitado, era gato com nome de gata mas confesso que foi o meu primeiro e que numa tentativa de evitar humilhar o animal, nunca me dei ao trabalho de verificar realmente o que era. Só soube no dia em que morreu.

Mais recentemente houve a Funisca, uma pequena cadela preta que tinha a particularidade de nos olhar de lado como se estivesse a escutar todas as palavras, mesmo se calados. Houve ainda a Reguila, mais rápida que uma flecha, e o Pardal que, fulminado por um ataque cardíaco, me olhou nos olhos e abanou a cauda precisamente no momento em que me morreu nas mãos.

Hoje resta-me a Mikas que começou por se chamar Quaresma mas depois lembrei-me da Flausina, o gato, e lá tive que me certificar de que era mesmo uma gata Mikas e não um gato Quaresma.

A verdade é que em toda a minha vida sempre tive um ou mais animais a fazerem-me companhia. E lembro-me de todos eles como me lembro de todas as caras e nomes da minha família e dos amigos mais próximos.

Os animais, cãos e gatos na sua maioria, foram e continuam a ser parte integral da vida, uma verdadeira fonte de inspiração  - Mikas, por exemplo, aprova todas e quaisquer aquisições de material fotográfico - e são excelentes provedores de companhia de indisputável qualidade.

Contudo, tive também a infelicidade de assistir, mais vezes do que realmente estou preparado para admitir, a episódios de incrível e estúpida brutalidade para com animais. 

Filho de um pai literalmente viciado em caça, tive o dissabor de conhecer pessoas para quem um animal que não respondia como desejado ao “traz ao dono” tinha pouco mais valor que um cigarro acabado de fumar.

E isto para não falar do absoluto e incrível desperdício da nossa escassa vida selvagem que é a caça tão dita "desportiva".

O respeito pelos animais é um valor moral e social consensual à grande maioria das sociedades ditas contemporâneas. Em algumas dela esse valor é também reconhecido como um valor jurídico que dá aos animais o benefício de uma proteção legal específica.

Em Portugal, a Lei de Proteção de Animais vigora desde 1995 mas a sua regulamentação nunca se realizou formalmente. A transposição de normas comunitárias, após a entrada na União Europeia, permitiu, todavia, a introdução de diversas disposições legais sobre animais de companhia e selvagens, incluindo a sua manipulação e detenção.

Apesar do país alinhar no plano jurídico com os restantes membros da União Europeia, a realidade no terreno é outra história. Veja-se o recente caso do cão que foi cruelmente amarrado a um carro e arrastado por uma rua de Vila Real.

Duas alunas da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro assistiram, há cerca de três semanas atrás, ao violento espetáculo e tomaram nota da matrícula do veículo. O cão, hoje conhecido como Sparky, lá se conseguiu libertar do cruel tratamento e, graças aos esforços de uma outra jovem e de muitos voluntários, está agora a recuperar, lentamente, das gravíssimas lesões que sofreu.

Dizem-nos que o caso está nas mãos do veterinário municipal, autoridade na matéria e de quem a PSP de Vila Real – conhecedora da identidade do suspeito - aguarda a decisão para proceder a uma acusação de crueldade sobre animais. Este é o progresso da investigação, três semanas após a ocorrência.

Pior ainda é o fato de que mesmo que condenado, o atual suspeito pouco tem com que se preocupar. É que a lei só prevê coimas e multas para este tipo de casos e raramente o Estado aplica o valor máximo. Aliás, faz exatamente o oposto: a maioria das coimas em casos de violência sobre animais são sempre aplicadas no valor mínimo de… 500 euros.

Esta é a triste realidade com que as associações de proteção e de direitos dos animais nacionais se debatem no terreno há dezenas de anos. A legislação é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido.

É por esta e outras razões que defendo que a atual lei seja revogada e substituída por uma outra que estabeleça maior severidade nas punições. Acredito, sinceramente, que está é a única forma de reverter uma situação que já devia estar resolvida há muito tempo no nosso país.

Atualmente circula na internet tal tipo de sugestão, avançada pela associação ANIMAL sob a forma de uma proposta de lei e apoiada por uma petição online. Para além de recomendar, entre outros,  penas de prisão até três anos em casos de morte ou lesões permanentes, a proposta de projeto lei dos ativistas da ANIMAL defende maior agilidade na competência e fiscalização por parte das autoridades.

Antes de terminar, uma palavra a quem pense que já temos problemas a mais e que, como já me têm dito, acha que propor uma nova lei de proteção de animais não faz sentido numa altura de profunda crise económica e social.

Antes pelo contrário, digo eu. É exatamente em alturas destas, quando o mundo está de olhos postos em nós, que temos que mostrar estar acima de todas a nossas diferenças e que temos a coragem, como sociedade moderna e civilizada, de corrigir de uma vez para sempre um dos nossos graves erros.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escutar, refletir e falar: a arte de praticar medicina

Na clínica de Augusto Faria de Barros não há computadores nem marcações de consulta. Também não há secretária nem uma cadeira para a única funcionária. Esta simplesmente se senta com os pacientes e anota, mentalmente, os problemas e a ordem de chegada de cada um.


É uma rotina que se repete há várias décadas nesta clínica privada, localizada no centro da cidade de Amarante. Por detrás da porta de vidro fosco do consultório senta-se o doutor Augusto Faria de Barros, oitenta e nove anos de idade e médico de clínica geral há mais de sessenta.

Augusto Faria Barros, 89 anos de idade ainda pratica medicina

Diz que ainda pratica medicina porque faz o que gosta e pelos desafios com que se depara. Está-lhe no sangue e na sua capacidade de resolver problemas de forma frontal e com uma dose de humildade. A mesma formula com que encara a vida há quase nove décadas.

“Gosto do que faço e tento levar uma vida equilibrada e saudável: pratico desporto - vou à caça – faço o trajeto a pé de casa ao escritório (duas vezes por dia) e observo a dieta. Sou religioso, rezo o terço todas as noites e tento levar uma vida pautada pela norma dos pensamentos positivos. Se esbarrar um carro, não fico preso em sentimentos de aborrecimento pelo acidente. Prefiro antes pensar na alegria que vou ter no dia em que o carro regressar, arranjado”, explica.

Escutar, refletir: a arte de praticar medicina

Natural do Porto, Augusto Barros licenciou-se em medicina geral pela Universidade de Coimbra aos vinte e quatro anos de idade. Passou por vários hospitais e clínicas privadas do país e instalou-se em Amarante pouco depois do seu casamento, aos vinte e seis. 

Aprendeu, cedo na vida, que as artes de escutar e refletir são as melhores qualidades de um médico e mesmo dum homem, particularmente naquelas alturas em que é a voz da sua própria consciência quem lhe fala.

No seu estilo peculiar, conta que aos 83 anos de idade teve que refletir profundamente sobre os seus hábitos de condução após um episódio desagradável nas margens do Rio Douro.

“Ia a ultrapassar um indivíduo já perto de uma curva quando me apareceu um camião à frente. Tive que travar a fundo para evitar o embate e apesar de nada mais ter acontecido, parei na berma da estrada e estive uns momentos a refletir. Desde então, passei a conduzir com mais calma”, conta.

Escutar é o segredo do negócio mas é preciso acompanhar a arte da escuta com a arte da fala. E aqui, nesta última, Augusto Barros tem uma particularidade que o destaca dos demais: trata a maioria dos pacientes por tu.

“Olha, é um dos meus defeitos. Quando pratiquei no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, havia um hábito de tratar os pacientes por tu. Para mim, tratar as pessoas por tu não significa assumir uma posição de superioridade, antes pelo contrário. É uma questão de amizade. Sinto-me amigo das pessoas. Mas atenção, eu não trato todos por tu”, avisa.

A crise vai ao consultório

Há grandes avanços na área da saúde em Portugal, concorda o médico de clínica geral de Amarante. Contudo, na área do diagnóstico acha que em pouco ou nada se avançou.

Muitos dos pacientes consultam-no para obter uma segunda opinião, algo que Augusto Barros vê como consequência dum sistema de saúde público em que os médicos são obrigados a “despachar”, diariamente e o mais rápido possível, centenas de clientes.

Mais preocupante, contudo, é o número crescente de casos de problemas do foro psicológico que passam pelas portas de vidro fosco do doutor Barros. Em troca de ideias com outros médicos e especialistas, conclui que o aumento é generalizado e que tem na sua raiz a atual crise financeira.

Aliás, a própria crise é o convidado inesperado que se senta, muitas vezes, na sua marquesa. Ao longo dos últimos dois, três anos tem aumentado o número de clientes com poucos ou nenhuns recursos financeiros. Já houve mesmo quem lhe fizesse um pedido de ajuda ou lhe ofereça outros bens em troca por uma consulta.

“Tive uma pessoa, que eu achava estar bem de finanças, que me disse que a única coisa que me podia dar era um abraço, porque não tinha mais nada. Fiquei muito comovido. Há casos em que não levo nada pela consulta, porque vejo que as pessoas... não podem mesmo”, conclui, emocionado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012