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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Baixo Tâmega acolhe a maior ecovia da região


A antiga linha ferroviária do Tâmega vai  acolher uma das mais longas ecopistas da região, com cerca de 42 km de extensão, assim que se concluírem as obras de reconversão da via-férrea desativada entre Amarante e Arco de Baúlhe, em Cabeceiras de Basto.

Atualmente já se encontra ativa a primeira fase deste projeto que resultou numa ecopista com cerca de 10km de extensão entre a cidade de Amarante e a estação de Chapa, na linha separatória com Celorico de Basto.

Projeto final prevê 42 km de ecovia. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


De acordo as duas autarquias de Basto, as obras de adaptação e expansão da ecopista decorrem “a bom ritmo” numa operação que é cofinanciada por fundos comunitários e que se insere na Rede Nacional de Ecopistas promovida pela REFER.

Em Celorico de Basto o projeto ocupa 25km do canal da antiga linha férrea para usos desportivos e lúdicos, fruto de uma intervenção que irá regularizar e pavimentar a via e ainda recuperar o património natural e arquitetónico que a rodeia.

A primeira intervenção, ao longo de 20km da via entre a estação de Lourido e a linha de demarcação com Cabeceiras de Basto, está em vias de conclusão segundo o município celoricense.

Quanto aos restantes 5km, que ligam Lourido à ecopista de Amarante, fonte do gabinete de comunicação daquela autarquia comunicou que a execução da obra só se realizará depois de conhecidos mais pormenores sobre a construção da barragem de Fridão, no rio Tâmega.

No concelho vizinho de Cabeceiras de Basto, o troço final, com cerca de 6km de extensão, será recuperado de forma similar através de um projeto avaliado em 850.600 euros. 

Ecopista de Amarante é um ponto de encontro da região

Inaugurada oficialmente em finais de abril de 2010, a nova ecopista de Amarante rapidamente se converteu num dos pontos de interesse mais procurados do concelho. Ali,  residentes e visitantes cruzam-se diariamente na prática de diversas atividades desportivas, nomeadamente atletismo e ciclismo.

 Ponto de encontro e de exercício. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


O trajeto desenrola-se ao longo da antiga via ferroviária que atravessa algumas das paisagens mais emblemáticas da região, tendo como pano de fundo a serra do Marão e a presença quase constante do rio Tâmega.

“Gosto de parar aqui e acolá e apreciar este quase-silêncio, onde só se escuta o rio e os sons da floresta”, diz Victor Costa, empresário de Amarante e utilizador assíduo da ecopista.

Um ávido desportista desde a sua juventude, o empresário explica que encontrou na pista o lugar ideal para a prática de atletismo, em particular para se preparar para provas de atletismo e BTT em que participa regularmente.

Por seu lado, Sérgio Magalhães e a sua esposa, Alice, utilizadores quase diários da via, dizem que o que mais lhes agrada é o sistema de iluminação instalado entre as estações de Amarante e Gatão, que lhes permite realizar passeios noturnos, a pé ou de bicicleta, longe do perigo das estradas.

“Antes de a pista abrir, íamos de vez em quando para a n210, entre Amarante e o Marco mas é uma estrada perigosa, especialmente à noite, porque tem pouca iluminação e muitas curvas sem visibilidade”, explicaram.

O troço da estrada nacional N210 entre Amarante e o Marco de Canaveses é um dos “segredos” mais bem guardados da região do Baixo Tâmega que, até à inauguração da ecopista, era o circuito de eleição para ciclistas e atletas da região.

O percurso, com cerca de 10km de extensão, serpenteia ao longo das margens da albufeira da barragem do Torrão que, graças à sua inclusão numa área de reserva natural e agrícola, foi poupado ao avanço, por vezes caótico, das zonas urbanizadas da região.

Próxima fase: recuperação das antigas estações

Entretanto a Câmara Municipal de Amarante, entidade gestora do primeiro troço da ecopista do Tâmega, lançou recentemente um concurso público para a adjudicação das obras de recuperação da antiga estação de Gatão, localizada a meio do percurso.

Estações vão ser recuperadas. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


Após a intervenção, o conjunto de edifícios da estação irá albergar uma série de serviços e valências orientados para os utilizadores da pista, nomeadamente casas de banho e um pequeno balneário.

A estação da Chapa, ainda em Amarante, também vai ser alvo de uma restauração similar mas como se encontra ainda habitada, o município terá que esperar até se concluir o processo de negociação com o atual residente.

A autarquia fez saber ainda que pretende recuperar, para o mesmo efeito, os edifícios que constituem a estação da cidade Amarante mas explicou que esse processo está ainda nas mãos da REFER e de um inquilino comercial daquele espaço.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Opinião: Traz ao Dono


"A legislação (de proteção de animais) é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido."

Violeta era a mãe de Flausina que teve como únicas crias Zola, Mondego, Tim e o Matulas. Houve ainda o feroz mas inteligente Bobby e antes deles todos, o Matateu, em cujo dorso andei às cavalitas até uma altura em que, sobressaltado por não me lembro bem o quê ou quem, me arremessou contra a esquina de um muro. Acabei o dia no hospital de Santa Maria, em Lisboa, a levar muitos, muitos pontos na testa.

Anos mais tarde e a milhares de quilómetros de distância, houve outra Flausina mas em forma de gato. Coitado, era gato com nome de gata mas confesso que foi o meu primeiro e que numa tentativa de evitar humilhar o animal, nunca me dei ao trabalho de verificar realmente o que era. Só soube no dia em que morreu.

Mais recentemente houve a Funisca, uma pequena cadela preta que tinha a particularidade de nos olhar de lado como se estivesse a escutar todas as palavras, mesmo se calados. Houve ainda a Reguila, mais rápida que uma flecha, e o Pardal que, fulminado por um ataque cardíaco, me olhou nos olhos e abanou a cauda precisamente no momento em que me morreu nas mãos.

Hoje resta-me a Mikas que começou por se chamar Quaresma mas depois lembrei-me da Flausina, o gato, e lá tive que me certificar de que era mesmo uma gata Mikas e não um gato Quaresma.

A verdade é que em toda a minha vida sempre tive um ou mais animais a fazerem-me companhia. E lembro-me de todos eles como me lembro de todas as caras e nomes da minha família e dos amigos mais próximos.

Os animais, cãos e gatos na sua maioria, foram e continuam a ser parte integral da vida, uma verdadeira fonte de inspiração  - Mikas, por exemplo, aprova todas e quaisquer aquisições de material fotográfico - e são excelentes provedores de companhia de indisputável qualidade.

Contudo, tive também a infelicidade de assistir, mais vezes do que realmente estou preparado para admitir, a episódios de incrível e estúpida brutalidade para com animais. 

Filho de um pai literalmente viciado em caça, tive o dissabor de conhecer pessoas para quem um animal que não respondia como desejado ao “traz ao dono” tinha pouco mais valor que um cigarro acabado de fumar.

E isto para não falar do absoluto e incrível desperdício da nossa escassa vida selvagem que é a caça tão dita "desportiva".

O respeito pelos animais é um valor moral e social consensual à grande maioria das sociedades ditas contemporâneas. Em algumas dela esse valor é também reconhecido como um valor jurídico que dá aos animais o benefício de uma proteção legal específica.

Em Portugal, a Lei de Proteção de Animais vigora desde 1995 mas a sua regulamentação nunca se realizou formalmente. A transposição de normas comunitárias, após a entrada na União Europeia, permitiu, todavia, a introdução de diversas disposições legais sobre animais de companhia e selvagens, incluindo a sua manipulação e detenção.

Apesar do país alinhar no plano jurídico com os restantes membros da União Europeia, a realidade no terreno é outra história. Veja-se o recente caso do cão que foi cruelmente amarrado a um carro e arrastado por uma rua de Vila Real.

Duas alunas da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro assistiram, há cerca de três semanas atrás, ao violento espetáculo e tomaram nota da matrícula do veículo. O cão, hoje conhecido como Sparky, lá se conseguiu libertar do cruel tratamento e, graças aos esforços de uma outra jovem e de muitos voluntários, está agora a recuperar, lentamente, das gravíssimas lesões que sofreu.

Dizem-nos que o caso está nas mãos do veterinário municipal, autoridade na matéria e de quem a PSP de Vila Real – conhecedora da identidade do suspeito - aguarda a decisão para proceder a uma acusação de crueldade sobre animais. Este é o progresso da investigação, três semanas após a ocorrência.

Pior ainda é o fato de que mesmo que condenado, o atual suspeito pouco tem com que se preocupar. É que a lei só prevê coimas e multas para este tipo de casos e raramente o Estado aplica o valor máximo. Aliás, faz exatamente o oposto: a maioria das coimas em casos de violência sobre animais são sempre aplicadas no valor mínimo de… 500 euros.

Esta é a triste realidade com que as associações de proteção e de direitos dos animais nacionais se debatem no terreno há dezenas de anos. A legislação é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido.

É por esta e outras razões que defendo que a atual lei seja revogada e substituída por uma outra que estabeleça maior severidade nas punições. Acredito, sinceramente, que está é a única forma de reverter uma situação que já devia estar resolvida há muito tempo no nosso país.

Atualmente circula na internet tal tipo de sugestão, avançada pela associação ANIMAL sob a forma de uma proposta de lei e apoiada por uma petição online. Para além de recomendar, entre outros,  penas de prisão até três anos em casos de morte ou lesões permanentes, a proposta de projeto lei dos ativistas da ANIMAL defende maior agilidade na competência e fiscalização por parte das autoridades.

Antes de terminar, uma palavra a quem pense que já temos problemas a mais e que, como já me têm dito, acha que propor uma nova lei de proteção de animais não faz sentido numa altura de profunda crise económica e social.

Antes pelo contrário, digo eu. É exatamente em alturas destas, quando o mundo está de olhos postos em nós, que temos que mostrar estar acima de todas a nossas diferenças e que temos a coragem, como sociedade moderna e civilizada, de corrigir de uma vez para sempre um dos nossos graves erros.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escutar, refletir e falar: a arte de praticar medicina

Na clínica de Augusto Faria de Barros não há computadores nem marcações de consulta. Também não há secretária nem uma cadeira para a única funcionária. Esta simplesmente se senta com os pacientes e anota, mentalmente, os problemas e a ordem de chegada de cada um.


É uma rotina que se repete há várias décadas nesta clínica privada, localizada no centro da cidade de Amarante. Por detrás da porta de vidro fosco do consultório senta-se o doutor Augusto Faria de Barros, oitenta e nove anos de idade e médico de clínica geral há mais de sessenta.

Augusto Faria Barros, 89 anos de idade ainda pratica medicina

Diz que ainda pratica medicina porque faz o que gosta e pelos desafios com que se depara. Está-lhe no sangue e na sua capacidade de resolver problemas de forma frontal e com uma dose de humildade. A mesma formula com que encara a vida há quase nove décadas.

“Gosto do que faço e tento levar uma vida equilibrada e saudável: pratico desporto - vou à caça – faço o trajeto a pé de casa ao escritório (duas vezes por dia) e observo a dieta. Sou religioso, rezo o terço todas as noites e tento levar uma vida pautada pela norma dos pensamentos positivos. Se esbarrar um carro, não fico preso em sentimentos de aborrecimento pelo acidente. Prefiro antes pensar na alegria que vou ter no dia em que o carro regressar, arranjado”, explica.

Escutar, refletir: a arte de praticar medicina

Natural do Porto, Augusto Barros licenciou-se em medicina geral pela Universidade de Coimbra aos vinte e quatro anos de idade. Passou por vários hospitais e clínicas privadas do país e instalou-se em Amarante pouco depois do seu casamento, aos vinte e seis. 

Aprendeu, cedo na vida, que as artes de escutar e refletir são as melhores qualidades de um médico e mesmo dum homem, particularmente naquelas alturas em que é a voz da sua própria consciência quem lhe fala.

No seu estilo peculiar, conta que aos 83 anos de idade teve que refletir profundamente sobre os seus hábitos de condução após um episódio desagradável nas margens do Rio Douro.

“Ia a ultrapassar um indivíduo já perto de uma curva quando me apareceu um camião à frente. Tive que travar a fundo para evitar o embate e apesar de nada mais ter acontecido, parei na berma da estrada e estive uns momentos a refletir. Desde então, passei a conduzir com mais calma”, conta.

Escutar é o segredo do negócio mas é preciso acompanhar a arte da escuta com a arte da fala. E aqui, nesta última, Augusto Barros tem uma particularidade que o destaca dos demais: trata a maioria dos pacientes por tu.

“Olha, é um dos meus defeitos. Quando pratiquei no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, havia um hábito de tratar os pacientes por tu. Para mim, tratar as pessoas por tu não significa assumir uma posição de superioridade, antes pelo contrário. É uma questão de amizade. Sinto-me amigo das pessoas. Mas atenção, eu não trato todos por tu”, avisa.

A crise vai ao consultório

Há grandes avanços na área da saúde em Portugal, concorda o médico de clínica geral de Amarante. Contudo, na área do diagnóstico acha que em pouco ou nada se avançou.

Muitos dos pacientes consultam-no para obter uma segunda opinião, algo que Augusto Barros vê como consequência dum sistema de saúde público em que os médicos são obrigados a “despachar”, diariamente e o mais rápido possível, centenas de clientes.

Mais preocupante, contudo, é o número crescente de casos de problemas do foro psicológico que passam pelas portas de vidro fosco do doutor Barros. Em troca de ideias com outros médicos e especialistas, conclui que o aumento é generalizado e que tem na sua raiz a atual crise financeira.

Aliás, a própria crise é o convidado inesperado que se senta, muitas vezes, na sua marquesa. Ao longo dos últimos dois, três anos tem aumentado o número de clientes com poucos ou nenhuns recursos financeiros. Já houve mesmo quem lhe fizesse um pedido de ajuda ou lhe ofereça outros bens em troca por uma consulta.

“Tive uma pessoa, que eu achava estar bem de finanças, que me disse que a única coisa que me podia dar era um abraço, porque não tinha mais nada. Fiquei muito comovido. Há casos em que não levo nada pela consulta, porque vejo que as pessoas... não podem mesmo”, conclui, emocionado.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Entre a gaffe e uma parede



“Como se chama o seu cãozinho?”, perguntei aqui há dias ao meu vizinho.
“Palhaço” respondeu ele, de cara séria. Palhaço? Fiquei surpreendido. Depois de quase uma década de centenas de “hoje vai chover” e milhares de “bons dias” pensei que estava prestes a descobrir o lado humoroso do homem. Errado.
“Palhaço? Então mas porquê?” pressionei. “Porque tudo o que ele faz é uma palhaçada”, respondeu o homem de cara séria.

Presidente da República hasteia bandeira nacional ao contrário - LUSA

Não é necessário praticar muita ginástica mental para extrapolar o episódio para o atual clima de crise e de falta de confiança no sistema político português, quiçá a nível mundial. As relações entre este Estado e a população portuguesa são das piores de que há memória nos últimos dois séculos ou mesmo mais.

Como se não fosse suficiente atolar o país num pântano de impostos, taxas e impostos sobre tarifas, o atual executivo e a sua oposição encenam verdadeiras peças teatrais tragicómicas cada vez que se anuncia novas medidas de austeridade.

O que era hoje cem por cento amanhã é cinquenta e para a próxima semana desaparece do mapa; se a coligação PSD/CDS estava em perigo de ruir ontem, hoje estão todos de acordo para amanhã surgirem novas dúvidas. Etc., etc., etc.

Uma coisa é certa: da história das crises financeiras que o país atravessou até hoje, esta é das mais graves. Não só pelo impacto, nefasto, imediato e sem fim à vista que tem na população em geral como no seu significado para as bases fundadoras deste projeto “Portugal”, lançado há cerca de 800 anos atrás.

Longe de ser um apelo ao nacionalismo é importante relembrar que Portugal, como nação, nasceu de uma recusa de vassalagem perante a Europa feudal da Idade Média. E mais: este projeto nasceu e consolidou-se muito antes dos hoje grandes poderes mundiais que, em plena “idade das trevas”, eram pouco mais do que um amontoado de pequenos condados, mal definidos e em constantes lutas fratricidas.

Sejamos honestos: este é um país pequeno, escasso de recursos naturais (mas não assim tanto como nos querem fazer pensar). Por consequência, as crises financeiras são parte integral da nossa história e, em muitos casos, marcam pontos de viragem no rumo e destino do país. Muitas delas acompanharam a tendência mundial da época mas outras ocorreram por mea culpa de quem nos governou.

Basta pegar num moderno tomo de História de Portugal (de preferência de Oliveira Marques ou, melhor, José Mattoso) e consultar o índice alfabético. E lá estão elas: crises económicas: pgs. 100, 102, 104, 119, 251, 254, 257, 297, 352, 355, 393, 408, 448, 463, 465, 495, 600, 643, 659, 692.

Umas mais graves do que as outras, é verdade, mas à exceção de talvez da empreitada de Alcácer-Quibir, em que acabamos por perder um rei e a soberania por mais de meio século, quase nenhum destes capítulos entrou para os anais da história com o pendor tragicómico em que a atual vai ser descrita, com toda a certeza.

D. Sebastião de Portugal. Desaparece na batalha de Alcácer-Quibir em 1578  e coroa portuguesa  passa para a dinastia dos Filipes de Espanha durante 60 anos.

E porquê tanta a certeza? A cerimónia oficial do dia 5 de outubro, a ultima vez em que observar  o aniversário da implantação da República é motivo para um feriado, não podia ter ocorrido da pior maneira. Não bastasse já o facto de ter ocorrido à porta fechada, longe do povo, foi palco de um dos mais tristes dias que esta nação tem memória.

Atónitos, assistimos em direto nas televisões nacionais, depois pela internet, a um Presidente da República içar o símbolo da nação de pernas ao ar. Gaffe com certeza, pensaram alguns. Outros, esperançados (confesso que fui um deles), acharam que houve ali mão dissidente.

Há contudo uma imagem que perdurará: aquela em que, no final da cerimónia, o atual presidente da República, Cavaco Silva, olha através do vidro traseiro do seu veículo para a varanda onde flutuava, ao sabor de uma ligeira brisa, a "endireitada" bandeira portuguesa.

Consciente, com toda a certeza,  de que um novo capítulo da História de Portugal tinha acabado de ser escrito e que, como figura de Estado, o seu papel como protagonista acabava de ser redefinido. Pelas piores razões.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Pum, pum, pum e pum: uma história de bombos e tradição em Amarante


No concelho de Amarante há doze grupos de bombos tradicionais popularmente conhecidos como Zés-Pereiras. Um deles, integralmente feminino, cumpre com dedicação e grande esforço o legado musical enraizado desde a Idade Média na cultura popular portuguesa. É um fenómeno cultural pouco estudado mas muito apreciado por um povo que não larga mão da tradição.

Aquela moça alta olha para o velho relógio da torre do mosteiro de S. Gonçalo e rola os olhos para trás em desespero. Ainda falta uma hora para o fim e com num gesto que exala determinação, dá dois passos em frente, olhos nos olhos das suas companheiras. Pendurado ao seu peito está um enorme bombo tradicional onde começa a malhar, rápida e furiosamente.

O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.

Maratona de três horas põe à prova a estamina física e mental
É a algazarra total no centro da cidade de Amarante no primeiro fim de semana de junho. São duas da manhã na Praça da República mas hoje, na primeira de três noites das festas da cidade, não há garantias de sono tranquilo para os residentes da zona histórica.

Pelo menos por mais umas horas. É que, em cumprimento da antiga tradição de honrar São Gonçalo, padroeiro da cidade, seis grupos de bombos tradicionais entraram em despique pouco depois do fogo-de-artifício da meia-noite. E nenhum deles está disposto a ser o primeiro a desistir. Há honra e orgulho a salvaguardar mas também já há quem desmaie de cansaço.

Entre as Rosas de Santa Maria, o primeiro grupo de bombos amarantino constituído integralmente por mulheres, ninguém cai para o lado ou desiste. Num canto da praça em frente ao Mosteiro de S. Gonçalo,  tocam de uma forma mais suave do que os seus competidores masculinos. A estratégia resulta, pois às três da manhã estão todas presentes quando vários homens já tinham saído de cena. Um, pelo menos, de ambulância.

No centro do círculo das vinte Rosas está a estudante universitária Eugénia Magalhães, de 22 anos, tocadora de caixa e uma das fundadoras do grupo. É a terceira na linha de gerações de tocadores de bombos da freguesia de Jazente onde, há cerca de 60 anos, o avô Abel fundou o primeiro grupo de Zés-Pereiras de Amarante.

Eugénia Magalhães e as Rosas de St. Maria
“Desde muito pequena que ando nos bombos, são as minhas férias de verão. Nasci no meio disto  tudo”, explica a jovem licenciada em Solicitadoria. “Mesmo em bebé, eu acompanhava a família nas deslocações por todo o país. Aliás, foi em Peniche que deixei de gatinhar e dei os meus primeiros passos durante uma atuação nas festas daquela cidade”.

Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.


E porquê uma formação só de mulheres? “O grupo surgiu com naturalidade porque somos uma freguesia onde há uma forte tradição de tocadores de bombos. As crianças, incluindo raparigas, aprendem desde  novas com os pais, muitos deles pertencentes a um dos vários grupos que temos em Jazente”, explica.
A prata da casa

Apesar de existirem registos com mais de cem anos sobre a presença de grupos de Zés-Pereiras nas festas a São Gonçalo só em 1949 é que surge o primeiro conjunto local pela mão de Abel Ribeiro, avô de Eugénia.

A partir daí, o número de grupos de bombos, uma das tradições musicais populares mais antigas a norte do rio Mondego, aumentou ao longo dos anos em Amarante. Hoje, só naquela pequena freguesia aninhada entre a serra da Aboboreira e o rio Ovelha, há três.

Em todo o concelho existem doze grupos que todos os anos percorrem Portugal de lés-a-lés em nome da música popular portuguesa. E quase todos traçam as suas origens ao primeiro formado por Abel Ribeiro.

Bombos "Amigos da Borga", Lufrei
“De uma forma ou outra, praticamente todos os mestres que vão tocar hoje nas festas do junho começaram as suas carreiras connosco, em Jazente”, explica Eugénia Magalhães.

Tradição medieval

Embora a tradição de tocadores de bombos em festas e romarias se perca na memória e nos poucos registos escritos sobre o tema, o certo é que os Zés Pereiras e os seus ruidosos bombos são parte integral de qualquer celebração religiosa ou civil.

A sua origem (também conhecidos como Zambumbos) tem sido pouco estudada mas há referências que aparecem, pontualmente, em trabalhos sobre a música popular portuguesa.

Zés-Pereiras de S. Torcato, Guimarães, em festa religiosa no séc. XIX - DR

Acredita-se, por exemplo, que a génese dos atuais grupos de bombos está ligada ao fenómeno das “bandas-de-pífaro” do século XIX, formação musical muito popular na Europa na época e cujo repertório inicial estava ligado, essencialmente, ao das bandas militares.

Contudo, há indícios de que a história deste tipo de expressão musical popular pode ir mais atrás, até à Idade Média.

“Há, sem dúvida, uma ligação entre os atuais Zés-Pereiras, as charangas medievais e o conceito de música alta que em Portugal sobreviveu às alterações dos gostos musicais do resto da Europa”, explica António Patrício, autor e historiador da região do Baixo Tâmega.

O estilo, em que grupos de charameleiros tocavam instrumentos rudimentares (trompetas, tambores, sacabuxas, charamelas e flautas) ganhou a designação pela sua alta sonoridade, uma característica ideal para os grandes e pequenos eventos ao ar livre.

Considerados primitivos e de mais fácil execução, os instrumentos, e os sons que produziam, eram tidos como o oposto da música baixa, um estilo mais suave e de fraca amplitude sonora considerado mais elegante, próprio de gente fina e com bom gosto.

“A música alta era, e ainda é, o estilo musical do povo porque os instrumentos são fabricados de materiais que estão à mão. Peles e madeira, essencialmente. São fáceis de aprender e de utilizar e, portanto, sobreviveram até aos dias de hoje”, explica o autor amarantino.

E o futuro?

Neste verão, e tal como tem acontecido nos últimos 60 anos, não há descanso para os Zambumbos de Amarante. O de Jazente, com cerca de 50 elementos, tem todos os fins-de-semana ocupados até setembro.

“Vamos a Peniche, a Viana, Bilhó (Vila Real), Alentejo, Algarve e, no passado, já fomos chamados a França, Brasil e Espanha”, diz Eugénia Magalhães. “Aliás notamos que temos mais atuações este ano”, sublinha.

E afasta qualquer dúvida sobre a falta de participação dos jovens nos grupos de bombos da região: “A tradição é muito forte e sempre houve uma atração pela atividade por parte dos mais jovens. Posso dizer que, pelo menos da minha parte, e mesmo que me tenha licenciado, que nunca irei desistir dos bombos. Esta é a minha vida”.

domingo, 20 de maio de 2012

ADAmarante domina slalom de canoagem no Tâmega


Os atletas de canoagem da Associação Desportiva de Amarante dominaram a competição de slalom que se realizou naquela cidade do Baixo Tâmega neste fim de semana, numa prova organizada pela Federação Portuguesa de Canoagem e o Aventura Marão Clube.

Cristiano Duarte e José Carvalho rumo ao primeiro lugar em C1 Masculino-Sénior
- foto Paulo Alexandre Teixeira


No total, os canoístas da  ADAmarante arrecadaram 209 pontos coletivos, seguidos de perto pelo Aventura Marão Clube que, para além dos 203 pontos totais, ainda colocou três dos seus atletas no pódio da categoria K1 Masculino-Infantis.

A  ADAmarante alcançou vários primeiros e segundos lugares nesta competição, com destaque para a categoria C2 Masculino-Sénior onde a duplas Cristinano Duarte/José Carvalho e Rui Ferreira/ Hélder Ferreira subiram ao primeiro e segundo lugares do pódio, respetivamente.

Na competição feminina coube aos visitantes do Clube Náutico de Fafe (CNFafe) o domínio em várias categorias, nomeadamente Marta Noval (C1 Feminino-Sénior) e Vânia Fernandes (K1 Feminino-Júnior).

Marta Noval, do CNFafe arrecadou primeiro lugar em C1 Feminino - Sénior
- foto Paulo Alexandre Teixeira


Contudo, a última palavra nesta categoria coube às equipas da casa em K1 Feminino-Sénior que ocuparam os três lugares do pódio: Sara Bastos, da ADAmarante, em primeiro, seguida por Ana Gomes (segundo) e Carolina Gomes (terceiro), ambas do Aventura Marão Clube.

Esta prova, a contar para a Taça Nacional de Slalom, ocorreu com dois meses de atraso devido à seca que, em Março deste ano, contribuiu para um nível de água no rio Tâmega abaixo do mínimo necessário para se realizar a competição.

ADAmarante conquista o primeiro lugar em equipas
- foto Paulo Alexandre Teixeira


Ainda de notar a ausência do Águas Bravas Clube, uma  outra organização amarantina de canoagem e  atual titular da Taça de Portugal que, por motivos de compromissos internacionais inadiáveis, não se fez representar nesta competição.

Portugal garante presença nos Jogos Olímpicos de Londres

A canoagem nacional brilhou esta semana na I Taça do Mundo de Velocidade que acabou hoje e donde saíram vários atletas portugueses medalhados.

A dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva, em K2 1000 metros, alcançaram a medalha de Ouro na prova de qualificação Europeia para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, o que lhes garantiu de imediato a presença naquela competição.

Adicionalmente, Portugal alcançou duas Medalhas de Bronze, em K2 1000 metros Masculino, mais uma vez com a dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva e com o K4 500 metros Feminino de Helena Rodrigues, Teresa Portela, Joana Vasconcelos e Beatriz Gomes.



Nesta competição estiveram ainda em prova mais 7 embarcações Portuguesas, das quais se destaca Teresa Portela que conquistou a presença na Final A de K1 200 metros, tendo terminado a prova no 9º lugar.

Uma referência ainda para Emanuel Silva que foi 4º na prova dos 5000 metros já esta tarde.

Portugal termina assim a presença nesta primeira competição oficial de 2012, regressando amanhã, 21 de Maio a Portugal, onde irá continuar a sua preparação para Londres 2012 e também para o Campeonato da Europa de Séniores a realizar no mês de Junho na Croácia.

Paulo Alexandre Teixeira c/ FPC




terça-feira, 15 de maio de 2012

Canonical disponibiliza Linux Ubuntu 12.04


A empresa sul-africana Canonical lançou a mais recente atualização da sua distribuição do sistema operativo Linux, denominada oficialmente “Ubuntu 12.04 LTS Precise Pangolin”, numa altura em que o mercado dos sistemas operativos se agita com o lançamento iminente do Windows 8.



A nova versão apresenta uma interface mais refinada do gestor de tarefas Unity, uma novidade introduzida na distribuição anterior do Ubuntu (11.04) que foi recebida com várias críticas quanto à sua funcionalidade.

“ O Unity foi bastante refinado desde então e tem sido bem avaliado tanto pelos novos utilizadores como pelos mais avançados”, disse, em comunicado de imprensa, o vice-presidente de comunicações da Canonical, Steve George.

O lançamento da nova distribuição Ubuntu acontece numa altura em que o mercado de sistemas operativos se agita com a disponibilização de versões "beta" do Windows 8 pela Microsoft.

Oferecida de forma gratuita, podendo ser descarregado no site da empresa, o Ubuntu 12.04 aponta claramente a um leque alargado de utilizadores e em particular ao segmento profissional e empresarial com uma oferta de apoio online e atualizações gratuitas durante os próximos cinco anos.

Adicionalmente, o novo sistema operativo inclui a suite Libreoffice, uma coleção de ferramentas equivalentes e compatíveis com o Microsoft Office, código mais robusto que permite tempos de início de sessão mais rápidos e maior autonomia de bateria, uma funcionalidade pensada claramente para o segmento dos notebooks.



Outra novidade que atrai ainda as atenções de observadores da indústria é a inclusão nesta distribuição de dois jogos da empresa EA Games-Electronic Arts, uma das maiores casas de software deste género o que, para muitos, é considerado com o sinal que o sistema operativo Linux está finalmente preparado para explorar este nicho do mercado.

Taxa de suicídio acima das duas ocorrências por dia


A média de suicídios em Portugal já ultrapassa os dois por dia e há uma tendência para continuar a aumentar, avisou em Amarante o médico forense José Eduardo Pinto da Costa.

Numa palestra que, a convite da Camara Municipal, proferiu naquela cidade, o médico e professor universitário alertou para um dos perigos que os idosos portugueses enfrentam na sociedade moderna.



“Há (entre os médicos) uma preocupação que a taxa continue a aumentar, fomentada, em parte, pela atual crise financeira”, disse Pinto da Costa.

Desde 2008 que vários setores da medicina em Portugal alertam para o aumento das taxas de mortes devidas ao suicídio que, a partir de 2009, ultrapassaram as duas por dia.

Apesar duma dificuldade em manter dados atualizados neste campo (os últimos números do Instituto Nacional de Estatística datam de 2010), vários membros da comunidade científica e médica portuguesas têm alertado para uma subida, pequena mas gradual, do número de suicídios em Portugal.

O tema suicídio fez parte de uma apresentação elaborada sobre a condição da terceira idade em Portugal que esgotou a lotação sentada do auditório da Biblioteca Albano Sardoeira.

É preciso falar mais sobre a eutanásia em Portugal

De forma exaustiva mas muito compreensiva, o médico forense e professor universitário abordou, ao seu estilo único, tópicos diversos como o sexo na terceira idade, a saúde mental dos idosos e ainda ofereceu conselhos em como manter uma vida saudável.

José Pinto da Costa reservou para o final da sua intervenção o tema mais controverso da eutanásia, uma atividade de suicídio assistido que é considerado um crime em Portugal e em muitos países da Europa.

Apesar de defender que a discussão à volta desta prática tem que ser feita, o médico natural de Cedofeita, no Porto, fez questão de sublinhar que é pessoalmente contra a eutanásia.

“Sei que é uma posição ambígua mas, moralmente, sou contra a eutanásia. Contudo, há muitos fatores e variáveis neste tema. Mas como médico, posso compreender porque é necessário abordar este tema e fazer alterações à legislação”, explicou.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Amarante: Turismo como fator de desenvolvimento da região


O concelho de Amarante vai ser um dos primeiros destinos turísticos presentes na loja interativa da Turismo Porto e Norte a inaugurar no mês de Maio, no aeroporto Sá Carneiro, anunciou o presidente daquela entidade regional de Turismo, Melchior Moreira.

O anúncio foi feito em Amarante, no passado dia 5, na Casa das Artes daquela cidade, no âmbito de uma conferência dedicada ao contributo do turismo para o concelho e para a região.

"Há que passar das palavras aos atos" - Melchior Moreira (esq.)
foto: Paulo Alexandre Teixeira

Durante a sua intervenção, Melchior Moreira explicou que o turismo está neste momento posicionado para ser um dos fatores de desenvolvimento das economias locais e regionais, que se debatem com os menores índices de crescimento de que há memória.

“Mas há que passar das palavras aos atos. O termo “turismo” tem sido maltratado pelos políticos nacionais: está patente nos discursos mas é preciso passar aos atos”, alertou.

O presidente da Turismo e Norte sublinhou ainda que é essencial financiar projetos na área, promover nos mercados estrangeiros e explicou que o turismo deve ser encarado como um negócio onde a participação da iniciativa privada devia ser incentivada.

“É preciso lembrar que o turista moderno não vai à procura de um destino mas sim de um produto estratégico. Esta tem sido uma das apostas que a Turismo e Norte tem vindo a fazer ao longo dos anos e que pretende alargar a todos os distritos do norte de Portugal”, concluiu Melchior Moreira.

Rota do Românico: o produto estratégico da região

Na segunda intervenção da conferência, a diretora do programa da Rota do Românico dos vales do Sousa e Tâmega disse que o seu projeto pode ajudar a economia deste núcleo territorial, onde se regista a terceira maior concentração de população a nível nacional.

"Amarante tem recursos e um sentido de estar" - Rosário Correia Machado
foto: Paulo Alexandre Teixeira


“Como um produto estratégico, a Rota pode ajudar no combate à crise”, afirmou ainda  Rosário Correia Machado, durante a apresentação deste projeto que abarca dezenas de concelhos da região.

Iniciada há catorze anos na zona do Vale do Sousa, a Rota do Românico expandiu recentemente a sua atividade para o vale do Tâmega, onde tem procedido à recuperação de património para integrar num projeto que tem tido uma grande adesão por parte das autarquias locais.

“Em particular, Amarante tem recursos e um sentido de estar nesta questão”, elogiou a diretora do programa, sublinhando ainda que os efeitos do esforço e trabalho de catorze anos já se sentem:

“A Rota está a crescer. No primeiro trimestre deste ano tivemos um aumento de visitas em cerca de 70 por cento, comparado com o ano passado. Em particular, o mês de Março de 2012 foi, sem dúvidas, o mais movimentado de sempre desde a abertura da rota ao público”, concluiu.

As Conferências de Amarante

O ciclo de conferências sobre Amarante foi lançado em 2010 pelo Fórum Amarante XXI, um grupo de pessoas de diversas ideologias com o propósito de servir como um elo de ligação entre os amarantinos, dando visibilidade às suas realidades e preocupações.

O projeto tem abordado uma leque de temas diversificado como a política, cidadania, o desenvolvimento sustentável e o papel das redes sociais e das organizações informais, entre outros.

Até ao final deste ano prevê-se a realização de mais duas conferências, a ultima das quais encerrará o ciclo, em meados do Outono.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fotoreportagem: Credo




Na noite de sexta-feira santa, primeiro dia das celebrações da Páscoa cristã, a cidade de Amarante desliga a sua iluminação pública para dar passagem à Procissão Esse Homo, vulgarmente conhecida como a "Procissão das Trévolas".

Durante várias horas, centenas de crentes e dignitários locais acompanham por várias paróquias da cidade a viagem de um caixão de vidro contendo uma efígie de Cristo falecido, visível graças a um engenhoso sistema de iluminação interior.

Apesar da escuridão em que a cidade mergulha, o evento ganha vida pelo súbito estrépito das trévolas e pela presença de centenas de velas e candeeiros a óleo que, ao passo de composições musicais solenes da Banda Musical de Amarante,  desfilam ao lado do caixão de Cristo.

(nota: selecione o símbolo com quatro setas apontadas em direções diagonais, no canto inferior direito, para ver o slideshow em tamanho real).

- Paulo Alexandre Teixeira

quinta-feira, 29 de março de 2012

Reportagem: Tripas aos Molhos, um capítulo na história de Vila Real


Sobejamente aduladas pelos apreciadores do prato simbólico de tudo quanto é Norte, as tripas aos molhos de Vila Real são uma especialidade gastronómica que encerra em si vários capítulos da história desta cidade e do engenho do povo transmontano face à dureza duma vida em isolamento no interior do Portugal "profundo".


Direitos Reservados - cortesia Restaurante Chaxoila

A gastronomia transmontana está intimamente ligada às inúmeras estórias anónimas de homens e mulheres que, durante anos a fio, desafiaram os rigores de um existência insulada e encerrada entre montanhas e que se faziam à estrada, quer fizesse sol, quer caísse neve, em direção à capital de Trás-Os-Montes, confortavelmente aninhada entre os sopés das serras do Marão e do Alvão.

Falar dos comeres e beberes desta região é falar essencialmente da mulher transmontana que na sua cozinha, entre potes de ferro e o fumo das lareiras, puxou pela imaginação e pelo engenho anos a fio para fazer o melhor que podia do que a terra, pouco dada a grandes culturas, oferecia.

E apesar de ser possível, hoje em dia, consultar diversos livros dedicados ao tema, a história tem mais sabor quando é contada por um dos seus maiores ícones: Dona Fernanda Brito, fundadora do restaurante Chaxoila, onde nasceu, há mais de seis décadas, o prato das tripas aos molhos.

Hoje com 87 anos de idade,  Fernanda "Chaxoila" lembra-se claramente de Roselas, na freguesia de Borbela, como um lugar ermo por onde passava um simples caminho no que é hoje entrada norte da cidade, na estrada nacional N2, entre Chaves e Vila Real.

"Fiquei com aquela imagem na cabeça das tripas enroladas (de Ponte de Lima)"
- foto por Paulo Alexandre Teixeira


“Em 1947 isto era praticamente um monte atravessado por um carreiro de terra batida. Era tão ermo que nem capoeira tinha para as galinhas, elas andavam por aí à solta”, conta, à mesa da sua casa, a escassos metros do restaurante que fundou e que ainda hoje existe.

Pouco depois de se casar, a progenitora das tripas aos molhos, natural de Braga, abriu há precisamente 64 anos, uma pequena mercearia de aldeia que granjeou grande importância entre os habitantes da freguesia e viajantes.

Estrategicamente localizada, a venda rapidamente se transformou numa taberna que chegou a servir, semanalmente, uma pipa de vinho (cerca de 500 litros), centenas de quilos de pão e broas, ovos e outros produtos a um leque cada vez maior de clientes.

“E uma coisa puxou pela outra: pediam-me uns petiscos para acompanhar o copo e lá fomos arranjando o que tínhamos à mão. À minha primeira receita da casa chamei de Ovos da Índia, quem eram simplesmente ovos cozidos em água com cebolas. Os clientes adoravam o sabor e achei piada de que se admiravam com a cor que a cebola dava ao ovo, que ficava um pouco acastanhado”.

Foi durante uma visita a Ponte de Lima que viu pela primeira vez tripas enfarinhadas, um prato local em que as tripas de vitela eram servidas enroladas e recheadas com farinha condimentada.

“Fiquei com aquela imagem na cabeça. Meses mais tarde, estava a falar com uma pessoa que normalmente me vendia carne e que ia deitar fora umas tripas de vitela, muito sujas. Pedi-lhas e ela até me agradeceu”, explica ainda D. Fernanda.

Durante dois dias, encerrada na cozinha que ao longo de quase 50 anos de trabalho nunca viu a presença doutra cozinheira, a “Chaxoila” laborou à volta das tripas, que foram lavadas várias vezes em água a ferver e diligentemente raspadas.

Lembrando-se da viagem a Ponte de Lima, experimentou enrolar umas tripas mais grossas em presunto, chouriço e um pouco de salsa. “E depois, fiz-lhe um lacinho com uma tripa mais fininha. Foi um sucesso enorme no primeiro dia em que as servi”, relembra.

DR- cortesia Restaurante Chaxoila

Incentivada pelo sucesso do prato, a taberna ganhou o nome de Chaxoila e transformou-se na casa de pasto e dormidas mais famosa de Vila Real. Ao longo dos anos, o pitéu foi copiado e reproduzido em dezenas de restaurantes da região mas Fernanda Brito guardou para si uma receita do “molho especial” que fazia as suas tripas aos molhos únicas na região.

“Custou-me contar o segredo quando finalmente passei o restaurante por motivos de saúde. Aliás, acho que a primeira proprietária não mereceu que lho contasse. Mas os atuais donos do Chaxoila merecem porque gosto muito do que fizeram com o lugar”, conclui.

Ainda no mesmo local de há 60 anos, o Chaxoila é hoje propriedade do empresário local Fernando Santos e da sua família, o terceiro proprietário que o restaurante conheceu desde que Fernanda Brito deixou as lides da cozinha.

Apesar de ser um local muito diferente do original Chaxoila, o restaurante é ainda conhecido como a “Catedral” das tripas aos molhos que, às quartas e sábados, continuam a adornar o cardápio ao lado de outros pratos típicos transmontanos como a mão de vitela com grão-de-bico (outra “invenção” de Fernanda Brito), carne à Chaxoila e leite-creme queimado à moda antiga.

Tripas, vitela e doces da casa fazem ainda parte do cardápio do Chaxoila do século XXI
- foto por Paulo Alexandre Teixeira

“Tornamos o restaurante um pouco maior e aproveitamos o espaço da esplanada para sentar mais dezoito pessoas”, explica José Carlos Santos, atual gerente, durante uma hora de almoço em que os clientes faziam, pacientemente, fila à espera de uma mesa.

“Ainda hoje vem gente de longe que se lembra do Chaxoila de antigamente e que à conta das tripas, relembram inúmeras histórias da Vila Real daqueles tempos”, conclui.

Paulo Alexandre Teixeira

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Que eu vou p'ra Angola"

Já não é a primeira vez que (nem vai ser a última) que Angola me entra pelas conversas adentro. Aparece nos momentos mais inoportunos (e oportunos) e nos mais diversos locais: no supermercado, num jogo de futebol, no alto duma serra, ao balcão de uma loja.

Apanha-me sempre de surpresa. Faz-me engolir em seco umas quantas vezes. Lembra-me daquela pele de jiboia há muito descartada, das canções da primeira classe e um truz-truz inesperado à porta de casa, em 75.

 “Vou para Angola”, disse-me aqui há dias um jovem informático. A declaração surgiu assim, de repente, como uma leitura de sentença inesperada, no início de mais uma daquelas conversas  entre pessoas que mal se conhecem.

Apanhado mais uma vez. Acusei o toque.

 “Então, vai para Angola. Mas porquê?”

“Isto aqui, não dá para viver”, retorquiu.

Aqui há umas três décadas atrás, num domingo de manhã, um casal de crianças, ele tão embriagado que mal se aguentava nas pernas, bateu-nos à porta e mostrou-nos um papelinho sarrabiscado com o nosso endereço.

“É aqui que vive o tio Manel?”, perguntou ela. Só tinham aquele pedaço de papel e a roupa que traziam no corpo. O voo desde Luanda fora alucinante: o moço, habituado a espaços maiores, saltou por tudo quanto era canto naquele avião.

A acalmia só se instalou quando as hospedeiras finalmente o prenderam no lugar e lhe encheram o colo de garrafinhas de uísque e vinho do Porto.

Angola reapareceu-nos de novo, assim de repente, nas nossas conversas há cerca de quatro anos, quando ocorreu a primeira machadada, dada lá longe em Wall Street, no sistema capitalista global há muito fora de controlo.

As economias de muitos países, Portugal incluído, entraram em velocidade de cruzeiro rumo ao desemprego, à precaridade e à ruína. À vergonha.

E África acenou, mais uma vez, aos novos-desesperados com promessas de mel nas fontes, pão nas árvores e dólares, muitos dólares, ao fim do mês.

 “É uma oportunidade de ouro mas só para quem sabe aproveitar”, disseram-me um dia, brilho estranho plantado num olhar que já só enxergava para além do horizonte.

As despedidas, para quem cá vai ficando, foram o que mais nos custou a habituar. “Até um dia destes”, respondi uma vez. Muito diferente dos adeuses a alguém que vai para, sei lá, França ou Suíça: “Até ao Natal” ou “Até agosto”.

Os regressos, esses são ainda mais estranhos. As conversas mudaram um pouco de tom, resumem-se a breves sessões de pergunta e resposta que acabam com sussurros, caretas e piscadelas:

“É pá, aquilo… tem que se lhe diga”, responderam-me aqui há dias. “Mas vale a pena”.

“Mas uma pessoa safa-se lá ou não?” perguntei?

Só me respondeu aquele brilho estranho, plantado num olhar que já só enxergava para lá do horizonte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista: Teresa Magalhães, esposa aos 17, viúva aos 23



"Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria"




Ser uma viúva muito jovem em pleno Estado Novo foi um desafio que Teresa Magalhães, natural e residente da freguesia de Gagos, em Celorico de Basto, foi forçada a enfrentar com apenas 23 anos de idade.

A antiga trabalhadora das termas de Carvalhelhos (Boticas de Barroso) que, em 1959, regressou à terra natal com três filhos ao colo e um ainda por nascer, teve que deitar de imediato mãos à obra pela sobrevivência da sua família.

Graças à forma corajosa e determinada como enfrentou os problemas da sua vida é, aos 76 anos de idade, uma das figuras mais reconhecidas da sua terra, onde dedica grande parte do seu tempo à fé católica como voluntária na paróquia local e como acompanhante de doentes ao Centro de Saúde do concelho.

Em reconhecimento pelas suas ações, a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho numa cerimónia do Dia Internacional da Mulher realizada em Braga, em 1989, onde teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Jorge Sampaio,  então Presidente da República.

Obra Aberta (OA): Como é que acabou em Boticas, depois de se casar?

Teresa Magalhães (TM): Casei-me aos 17 anos em Celorico de Basto mas depois mudamo-nos para Boticas porque era aí onde o meu marido trabalhava como mineiro, nas minas do Carvalho. Eu acabei por arranjar trabalho nas termas de Carvalhelhos, onde aprendi a dar injeções e a fazer curativos.

OA: Essa experiência como enfermeira era algo que sabia fazer?

TM: Não. Comecei a trabalhar aos quinze anos de idade mas a ajudar na preparação dos falecidos para os funerais. Ainda me lembro da primeira vez que fiz isso: a senhora que estava a vestir o morto rasgou-lhe o meiote e fui eu que lho cosi, ali mesmo no pé.

OA: Portanto, em Carvalhelhos, você teve que aprender uma nova aptidão.

TM: Não havia remédio, teve mesmo que ser. Eles não tinham ninguém na altura que pudesse fazer aquele trabalho. Eu era enfermeira mas sem estudos nenhuns (risos).

OA: Essa experiência como enfermeira acabou por lhe valer mais tarde, quando o seu marido faleceu e você regressou a Celorico de Basto…

TM: Salvou-nos a vida. Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria. Como não havia médicos nem enfermeiros em Gagos nem nas outras freguesias, comecei a dar injeções a pessoas e até mesmo a animais domésticos.

OA: Ou seja, tornou-se na enfermeira desta zona. Como era o seu dia de trabalho?

TM: Trabalhava o dia inteiro. Levantava-me muito cedo, de madrugada e passava o dia a fazer aquilo até à noite. Lembro-me que havia, em certas casas, três e mais pessoas à minha espera.

OA: E como é que se deslocava para realizar este trabalho?

TM: Sempre a pé, percorria três, quatro freguesias por dia, muitos e muitos quilómetros. Era bastante cansativo, chegava a casa muito tarde.

OA: E quanto é que cobrava pelos seus serviços?

TM: Nunca aceitei dinheiro. As pessoas tinham pena de mim, sabiam da minha situação e insistiam mas eu não queria pagamento. Em vez de dinheiro, aceitava comida: umas batatas, uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família.

OA: Mas isso bastava para se sustentar a si e a quatro mais bocas?

TM: Não e a vida era muito difícil. Um dia pedi ao meu pai mil escudos emprestados e, por sugestão de um cliente, fui a uma loja em Fafe onde comprei um cesto e algumas miudezas: pentes, sabonetes, pasta de dentes, lâminas de barbear e mais algumas coisas que não me lembro agora. Lembro-me que não chegava pra encher o cesto.

No dia seguinte, meti o cesto à cabeça e comecei a ir de porta em porta, a vender as miudezas. A princípio tive muita vergonha. A primeira cliente que visitei teve muita pena de mim, porque me conhecia bem e aos meus quatro filhos sem pai. Pagou-me e ainda me ofereceu meia broa.


"Em vez de dinheiro, aceitava comida: uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família"


OA: E os seus filhos, à medida que iam crescendo, ajudavam-na nas suas lides?

TM: Naquele tempo, para quem tinha filhos na situação em que eu tinha, a única solução era pô-los fora de casa assim que possível. Quando acabaram a quarta classe, os três mais velhos seguiram logo o seu caminho, para as obras ou para servir em casas de fidalgos, no Porto. O mais pequeno ficou com os meus pais.

OA: Era uma situação difícil. Mesmo estando fora, vocês mantinham contacto uns com os outros?

TM: Sim, de vez em quando. Mas os filhos lembravam-se sempre de mim, ainda hoje se lembram. Enviavam dinheiro e com essa ajuda mais alguns trabalhos que fui fazendo, acabei por construir a minha casa, onde estamos hoje. Paguei por ela, em 1966, 25 contos. Ainda tenho as faturas ali numa gaveta.

OA: Que outros trabalhos acabou por fazer?

TM: Servi em casas de fidalgos no Porto durante uns tempos e quando abriram uma pedreira aqui à frente da minha casa, fui para lá trabalhar a separar cascalho do minério. Entretanto, abri também uma pequena mercearia numa divisão da casa, onde ainda hoje recebo clientes.

OA: E a senhora, que algumas pessoas nos disseram ser de uma das mulheres mais belas de Celorico de Basto, nunca mais se casou?

TM (Risos): Não, nunca mais. Ainda houve uns homens que anunciaram intenções mas isso não, eu não permiti. Os filhos são meus e do meu falecido marido e não permiti que outro viesse para se tornar no pai deles.

OA: Em 1989 a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho no Dia Internacional da Mulher num encontro em Braga organizado pela Presidência da República. Como lhe chegou esse convite?

TM: Fiquei surpreendida pelo convite e a princípio não o aceitei. Gosto de ser discreta no meu trabalho e não gosto muito de elogios. Acho que me ficaram a conhecer pelo trabalho que faço na paróquia e por acompanhar alguns dos doentes ao Centro de Saúde. A Dra. Maria da Graça (diretora do Centro de Saúde de Celorico de Basto) é que insistiu e acabei por aceitar. Foi um dia muito bom e acabei por conhecer o presidente da República (Jorge Sampaio).

OA: E, para finalizar, qual o segredo para o sucesso da sua vida?

TM (Risos): Encarar as adversidades sem medo, estar disposta a sacrificar o corpo pela família e, acima de tudo, fé, muita fé em Deus. Eu sei que o que acabei de dizer não é ser muito humilde mas é a verdade.


"Paguei 25 contos pela minha casa em 1966. Ainda tenho as faturas ali, numa gaveta."