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| "Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria" |
Ser uma viúva muito jovem em pleno Estado Novo foi um desafio que Teresa Magalhães, natural e residente da freguesia de Gagos, em Celorico de Basto, foi forçada a enfrentar com apenas 23 anos de idade.
A antiga trabalhadora das termas de Carvalhelhos (Boticas de Barroso) que, em 1959, regressou à terra natal com três filhos ao colo e um ainda por nascer, teve que deitar de imediato mãos à obra pela sobrevivência da sua família.
Graças à forma corajosa e determinada como enfrentou os problemas da sua vida é, aos 76 anos de idade, uma das figuras mais reconhecidas da sua terra, onde dedica grande parte do seu tempo à fé católica como voluntária na paróquia local e como acompanhante de doentes ao Centro de Saúde do concelho.
Em reconhecimento pelas suas ações, a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho numa cerimónia do Dia Internacional da Mulher realizada em Braga, em 1989, onde teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Jorge Sampaio, então Presidente da República.
Teresa Magalhães (TM): Casei-me aos 17 anos em Celorico de Basto mas depois mudamo-nos para Boticas porque era aí onde o meu marido trabalhava como mineiro, nas minas do Carvalho. Eu acabei por arranjar trabalho nas termas de Carvalhelhos, onde aprendi a dar injeções e a fazer curativos.
OA: Essa experiência como enfermeira era algo que sabia fazer?
TM: Não. Comecei a trabalhar aos quinze anos de idade mas a ajudar na preparação dos falecidos para os funerais. Ainda me lembro da primeira vez que fiz isso: a senhora que estava a vestir o morto rasgou-lhe o meiote e fui eu que lho cosi, ali mesmo no pé.
OA: Portanto, em Carvalhelhos, você teve que aprender uma nova aptidão.
TM: Não havia remédio, teve mesmo que ser. Eles não tinham ninguém na altura que pudesse fazer aquele trabalho. Eu era enfermeira mas sem estudos nenhuns (risos).
OA: Essa experiência como enfermeira acabou por lhe valer mais tarde, quando o seu marido faleceu e você regressou a Celorico de Basto…
TM: Salvou-nos a vida. Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria. Como não havia médicos nem enfermeiros em Gagos nem nas outras freguesias, comecei a dar injeções a pessoas e até mesmo a animais domésticos.
OA: Ou seja, tornou-se na enfermeira desta zona. Como era o seu dia de trabalho?
TM: Trabalhava o dia inteiro. Levantava-me muito cedo, de madrugada e passava o dia a fazer aquilo até à noite. Lembro-me que havia, em certas casas, três e mais pessoas à minha espera.
OA: E como é que se deslocava para realizar este trabalho?
TM: Sempre a pé, percorria três, quatro freguesias por dia, muitos e muitos quilómetros. Era bastante cansativo, chegava a casa muito tarde.
OA: E quanto é que cobrava pelos seus serviços?
TM: Nunca aceitei dinheiro. As pessoas tinham pena de mim, sabiam da minha situação e insistiam mas eu não queria pagamento. Em vez de dinheiro, aceitava comida: umas batatas, uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família.
OA: Mas isso bastava para se sustentar a si e a quatro mais bocas?
TM: Não e a vida era muito difícil. Um dia pedi ao meu pai mil escudos emprestados e, por sugestão de um cliente, fui a uma loja em Fafe onde comprei um cesto e algumas miudezas: pentes, sabonetes, pasta de dentes, lâminas de barbear e mais algumas coisas que não me lembro agora. Lembro-me que não chegava pra encher o cesto.
No dia seguinte, meti o cesto à cabeça e comecei a ir de porta em porta, a vender as miudezas. A princípio tive muita vergonha. A primeira cliente que visitei teve muita pena de mim, porque me conhecia bem e aos meus quatro filhos sem pai. Pagou-me e ainda me ofereceu meia broa.
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| "Em vez de dinheiro, aceitava comida: uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família" |
OA: E os seus filhos, à medida que iam crescendo, ajudavam-na nas suas lides?
TM: Naquele tempo, para quem tinha filhos na situação em que eu tinha, a única solução era pô-los fora de casa assim que possível. Quando acabaram a quarta classe, os três mais velhos seguiram logo o seu caminho, para as obras ou para servir em casas de fidalgos, no Porto. O mais pequeno ficou com os meus pais.
OA: Era uma situação difícil. Mesmo estando fora, vocês mantinham contacto uns com os outros?
TM: Sim, de vez em quando. Mas os filhos lembravam-se sempre de mim, ainda hoje se lembram. Enviavam dinheiro e com essa ajuda mais alguns trabalhos que fui fazendo, acabei por construir a minha casa, onde estamos hoje. Paguei por ela, em 1966, 25 contos. Ainda tenho as faturas ali numa gaveta.
OA: Que outros trabalhos acabou por fazer?
TM: Servi em casas de fidalgos no Porto durante uns tempos e quando abriram uma pedreira aqui à frente da minha casa, fui para lá trabalhar a separar cascalho do minério. Entretanto, abri também uma pequena mercearia numa divisão da casa, onde ainda hoje recebo clientes.
OA: E a senhora, que algumas pessoas nos disseram ser de uma das mulheres mais belas de Celorico de Basto, nunca mais se casou?
TM (Risos): Não, nunca mais. Ainda houve uns homens que anunciaram intenções mas isso não, eu não permiti. Os filhos são meus e do meu falecido marido e não permiti que outro viesse para se tornar no pai deles.
OA: Em 1989 a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho no Dia Internacional da Mulher num encontro em Braga organizado pela Presidência da República. Como lhe chegou esse convite?
TM: Fiquei surpreendida pelo convite e a princípio não o aceitei. Gosto de ser discreta no meu trabalho e não gosto muito de elogios. Acho que me ficaram a conhecer pelo trabalho que faço na paróquia e por acompanhar alguns dos doentes ao Centro de Saúde. A Dra. Maria da Graça (diretora do Centro de Saúde de Celorico de Basto) é que insistiu e acabei por aceitar. Foi um dia muito bom e acabei por conhecer o presidente da República (Jorge Sampaio).
OA: E, para finalizar, qual o segredo para o sucesso da sua vida?



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