quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Opinião: Traz ao Dono


"A legislação (de proteção de animais) é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido."

Violeta era a mãe de Flausina que teve como únicas crias Zola, Mondego, Tim e o Matulas. Houve ainda o feroz mas inteligente Bobby e antes deles todos, o Matateu, em cujo dorso andei às cavalitas até uma altura em que, sobressaltado por não me lembro bem o quê ou quem, me arremessou contra a esquina de um muro. Acabei o dia no hospital de Santa Maria, em Lisboa, a levar muitos, muitos pontos na testa.

Anos mais tarde e a milhares de quilómetros de distância, houve outra Flausina mas em forma de gato. Coitado, era gato com nome de gata mas confesso que foi o meu primeiro e que numa tentativa de evitar humilhar o animal, nunca me dei ao trabalho de verificar realmente o que era. Só soube no dia em que morreu.

Mais recentemente houve a Funisca, uma pequena cadela preta que tinha a particularidade de nos olhar de lado como se estivesse a escutar todas as palavras, mesmo se calados. Houve ainda a Reguila, mais rápida que uma flecha, e o Pardal que, fulminado por um ataque cardíaco, me olhou nos olhos e abanou a cauda precisamente no momento em que me morreu nas mãos.

Hoje resta-me a Mikas que começou por se chamar Quaresma mas depois lembrei-me da Flausina, o gato, e lá tive que me certificar de que era mesmo uma gata Mikas e não um gato Quaresma.

A verdade é que em toda a minha vida sempre tive um ou mais animais a fazerem-me companhia. E lembro-me de todos eles como me lembro de todas as caras e nomes da minha família e dos amigos mais próximos.

Os animais, cãos e gatos na sua maioria, foram e continuam a ser parte integral da vida, uma verdadeira fonte de inspiração  - Mikas, por exemplo, aprova todas e quaisquer aquisições de material fotográfico - e são excelentes provedores de companhia de indisputável qualidade.

Contudo, tive também a infelicidade de assistir, mais vezes do que realmente estou preparado para admitir, a episódios de incrível e estúpida brutalidade para com animais. 

Filho de um pai literalmente viciado em caça, tive o dissabor de conhecer pessoas para quem um animal que não respondia como desejado ao “traz ao dono” tinha pouco mais valor que um cigarro acabado de fumar.

E isto para não falar do absoluto e incrível desperdício da nossa escassa vida selvagem que é a caça tão dita "desportiva".

O respeito pelos animais é um valor moral e social consensual à grande maioria das sociedades ditas contemporâneas. Em algumas dela esse valor é também reconhecido como um valor jurídico que dá aos animais o benefício de uma proteção legal específica.

Em Portugal, a Lei de Proteção de Animais vigora desde 1995 mas a sua regulamentação nunca se realizou formalmente. A transposição de normas comunitárias, após a entrada na União Europeia, permitiu, todavia, a introdução de diversas disposições legais sobre animais de companhia e selvagens, incluindo a sua manipulação e detenção.

Apesar do país alinhar no plano jurídico com os restantes membros da União Europeia, a realidade no terreno é outra história. Veja-se o recente caso do cão que foi cruelmente amarrado a um carro e arrastado por uma rua de Vila Real.

Duas alunas da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro assistiram, há cerca de três semanas atrás, ao violento espetáculo e tomaram nota da matrícula do veículo. O cão, hoje conhecido como Sparky, lá se conseguiu libertar do cruel tratamento e, graças aos esforços de uma outra jovem e de muitos voluntários, está agora a recuperar, lentamente, das gravíssimas lesões que sofreu.

Dizem-nos que o caso está nas mãos do veterinário municipal, autoridade na matéria e de quem a PSP de Vila Real – conhecedora da identidade do suspeito - aguarda a decisão para proceder a uma acusação de crueldade sobre animais. Este é o progresso da investigação, três semanas após a ocorrência.

Pior ainda é o fato de que mesmo que condenado, o atual suspeito pouco tem com que se preocupar. É que a lei só prevê coimas e multas para este tipo de casos e raramente o Estado aplica o valor máximo. Aliás, faz exatamente o oposto: a maioria das coimas em casos de violência sobre animais são sempre aplicadas no valor mínimo de… 500 euros.

Esta é a triste realidade com que as associações de proteção e de direitos dos animais nacionais se debatem no terreno há dezenas de anos. A legislação é uma verdadeira manta de retalhos e a coordenação entre autoridades é tão morosa e ineficaz que quem comete um ato de crueldade contra um animal em Portugal pode ter a certeza duma coisa: que nunca será punido.

É por esta e outras razões que defendo que a atual lei seja revogada e substituída por uma outra que estabeleça maior severidade nas punições. Acredito, sinceramente, que está é a única forma de reverter uma situação que já devia estar resolvida há muito tempo no nosso país.

Atualmente circula na internet tal tipo de sugestão, avançada pela associação ANIMAL sob a forma de uma proposta de lei e apoiada por uma petição online. Para além de recomendar, entre outros,  penas de prisão até três anos em casos de morte ou lesões permanentes, a proposta de projeto lei dos ativistas da ANIMAL defende maior agilidade na competência e fiscalização por parte das autoridades.

Antes de terminar, uma palavra a quem pense que já temos problemas a mais e que, como já me têm dito, acha que propor uma nova lei de proteção de animais não faz sentido numa altura de profunda crise económica e social.

Antes pelo contrário, digo eu. É exatamente em alturas destas, quando o mundo está de olhos postos em nós, que temos que mostrar estar acima de todas a nossas diferenças e que temos a coragem, como sociedade moderna e civilizada, de corrigir de uma vez para sempre um dos nossos graves erros.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escutar, refletir e falar: a arte de praticar medicina

Na clínica de Augusto Faria de Barros não há computadores nem marcações de consulta. Também não há secretária nem uma cadeira para a única funcionária. Esta simplesmente se senta com os pacientes e anota, mentalmente, os problemas e a ordem de chegada de cada um.


É uma rotina que se repete há várias décadas nesta clínica privada, localizada no centro da cidade de Amarante. Por detrás da porta de vidro fosco do consultório senta-se o doutor Augusto Faria de Barros, oitenta e nove anos de idade e médico de clínica geral há mais de sessenta.

Augusto Faria Barros, 89 anos de idade ainda pratica medicina

Diz que ainda pratica medicina porque faz o que gosta e pelos desafios com que se depara. Está-lhe no sangue e na sua capacidade de resolver problemas de forma frontal e com uma dose de humildade. A mesma formula com que encara a vida há quase nove décadas.

“Gosto do que faço e tento levar uma vida equilibrada e saudável: pratico desporto - vou à caça – faço o trajeto a pé de casa ao escritório (duas vezes por dia) e observo a dieta. Sou religioso, rezo o terço todas as noites e tento levar uma vida pautada pela norma dos pensamentos positivos. Se esbarrar um carro, não fico preso em sentimentos de aborrecimento pelo acidente. Prefiro antes pensar na alegria que vou ter no dia em que o carro regressar, arranjado”, explica.

Escutar, refletir: a arte de praticar medicina

Natural do Porto, Augusto Barros licenciou-se em medicina geral pela Universidade de Coimbra aos vinte e quatro anos de idade. Passou por vários hospitais e clínicas privadas do país e instalou-se em Amarante pouco depois do seu casamento, aos vinte e seis. 

Aprendeu, cedo na vida, que as artes de escutar e refletir são as melhores qualidades de um médico e mesmo dum homem, particularmente naquelas alturas em que é a voz da sua própria consciência quem lhe fala.

No seu estilo peculiar, conta que aos 83 anos de idade teve que refletir profundamente sobre os seus hábitos de condução após um episódio desagradável nas margens do Rio Douro.

“Ia a ultrapassar um indivíduo já perto de uma curva quando me apareceu um camião à frente. Tive que travar a fundo para evitar o embate e apesar de nada mais ter acontecido, parei na berma da estrada e estive uns momentos a refletir. Desde então, passei a conduzir com mais calma”, conta.

Escutar é o segredo do negócio mas é preciso acompanhar a arte da escuta com a arte da fala. E aqui, nesta última, Augusto Barros tem uma particularidade que o destaca dos demais: trata a maioria dos pacientes por tu.

“Olha, é um dos meus defeitos. Quando pratiquei no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, havia um hábito de tratar os pacientes por tu. Para mim, tratar as pessoas por tu não significa assumir uma posição de superioridade, antes pelo contrário. É uma questão de amizade. Sinto-me amigo das pessoas. Mas atenção, eu não trato todos por tu”, avisa.

A crise vai ao consultório

Há grandes avanços na área da saúde em Portugal, concorda o médico de clínica geral de Amarante. Contudo, na área do diagnóstico acha que em pouco ou nada se avançou.

Muitos dos pacientes consultam-no para obter uma segunda opinião, algo que Augusto Barros vê como consequência dum sistema de saúde público em que os médicos são obrigados a “despachar”, diariamente e o mais rápido possível, centenas de clientes.

Mais preocupante, contudo, é o número crescente de casos de problemas do foro psicológico que passam pelas portas de vidro fosco do doutor Barros. Em troca de ideias com outros médicos e especialistas, conclui que o aumento é generalizado e que tem na sua raiz a atual crise financeira.

Aliás, a própria crise é o convidado inesperado que se senta, muitas vezes, na sua marquesa. Ao longo dos últimos dois, três anos tem aumentado o número de clientes com poucos ou nenhuns recursos financeiros. Já houve mesmo quem lhe fizesse um pedido de ajuda ou lhe ofereça outros bens em troca por uma consulta.

“Tive uma pessoa, que eu achava estar bem de finanças, que me disse que a única coisa que me podia dar era um abraço, porque não tinha mais nada. Fiquei muito comovido. Há casos em que não levo nada pela consulta, porque vejo que as pessoas... não podem mesmo”, conclui, emocionado.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Entre a gaffe e uma parede



“Como se chama o seu cãozinho?”, perguntei aqui há dias ao meu vizinho.
“Palhaço” respondeu ele, de cara séria. Palhaço? Fiquei surpreendido. Depois de quase uma década de centenas de “hoje vai chover” e milhares de “bons dias” pensei que estava prestes a descobrir o lado humoroso do homem. Errado.
“Palhaço? Então mas porquê?” pressionei. “Porque tudo o que ele faz é uma palhaçada”, respondeu o homem de cara séria.

Presidente da República hasteia bandeira nacional ao contrário - LUSA

Não é necessário praticar muita ginástica mental para extrapolar o episódio para o atual clima de crise e de falta de confiança no sistema político português, quiçá a nível mundial. As relações entre este Estado e a população portuguesa são das piores de que há memória nos últimos dois séculos ou mesmo mais.

Como se não fosse suficiente atolar o país num pântano de impostos, taxas e impostos sobre tarifas, o atual executivo e a sua oposição encenam verdadeiras peças teatrais tragicómicas cada vez que se anuncia novas medidas de austeridade.

O que era hoje cem por cento amanhã é cinquenta e para a próxima semana desaparece do mapa; se a coligação PSD/CDS estava em perigo de ruir ontem, hoje estão todos de acordo para amanhã surgirem novas dúvidas. Etc., etc., etc.

Uma coisa é certa: da história das crises financeiras que o país atravessou até hoje, esta é das mais graves. Não só pelo impacto, nefasto, imediato e sem fim à vista que tem na população em geral como no seu significado para as bases fundadoras deste projeto “Portugal”, lançado há cerca de 800 anos atrás.

Longe de ser um apelo ao nacionalismo é importante relembrar que Portugal, como nação, nasceu de uma recusa de vassalagem perante a Europa feudal da Idade Média. E mais: este projeto nasceu e consolidou-se muito antes dos hoje grandes poderes mundiais que, em plena “idade das trevas”, eram pouco mais do que um amontoado de pequenos condados, mal definidos e em constantes lutas fratricidas.

Sejamos honestos: este é um país pequeno, escasso de recursos naturais (mas não assim tanto como nos querem fazer pensar). Por consequência, as crises financeiras são parte integral da nossa história e, em muitos casos, marcam pontos de viragem no rumo e destino do país. Muitas delas acompanharam a tendência mundial da época mas outras ocorreram por mea culpa de quem nos governou.

Basta pegar num moderno tomo de História de Portugal (de preferência de Oliveira Marques ou, melhor, José Mattoso) e consultar o índice alfabético. E lá estão elas: crises económicas: pgs. 100, 102, 104, 119, 251, 254, 257, 297, 352, 355, 393, 408, 448, 463, 465, 495, 600, 643, 659, 692.

Umas mais graves do que as outras, é verdade, mas à exceção de talvez da empreitada de Alcácer-Quibir, em que acabamos por perder um rei e a soberania por mais de meio século, quase nenhum destes capítulos entrou para os anais da história com o pendor tragicómico em que a atual vai ser descrita, com toda a certeza.

D. Sebastião de Portugal. Desaparece na batalha de Alcácer-Quibir em 1578  e coroa portuguesa  passa para a dinastia dos Filipes de Espanha durante 60 anos.

E porquê tanta a certeza? A cerimónia oficial do dia 5 de outubro, a ultima vez em que observar  o aniversário da implantação da República é motivo para um feriado, não podia ter ocorrido da pior maneira. Não bastasse já o facto de ter ocorrido à porta fechada, longe do povo, foi palco de um dos mais tristes dias que esta nação tem memória.

Atónitos, assistimos em direto nas televisões nacionais, depois pela internet, a um Presidente da República içar o símbolo da nação de pernas ao ar. Gaffe com certeza, pensaram alguns. Outros, esperançados (confesso que fui um deles), acharam que houve ali mão dissidente.

Há contudo uma imagem que perdurará: aquela em que, no final da cerimónia, o atual presidente da República, Cavaco Silva, olha através do vidro traseiro do seu veículo para a varanda onde flutuava, ao sabor de uma ligeira brisa, a "endireitada" bandeira portuguesa.

Consciente, com toda a certeza,  de que um novo capítulo da História de Portugal tinha acabado de ser escrito e que, como figura de Estado, o seu papel como protagonista acabava de ser redefinido. Pelas piores razões.



terça-feira, 5 de junho de 2012

Pum, pum, pum e pum: uma história de bombos e tradição em Amarante


No concelho de Amarante há doze grupos de bombos tradicionais popularmente conhecidos como Zés-Pereiras. Um deles, integralmente feminino, cumpre com dedicação e grande esforço o legado musical enraizado desde a Idade Média na cultura popular portuguesa. É um fenómeno cultural pouco estudado mas muito apreciado por um povo que não larga mão da tradição.

Aquela moça alta olha para o velho relógio da torre do mosteiro de S. Gonçalo e rola os olhos para trás em desespero. Ainda falta uma hora para o fim e com num gesto que exala determinação, dá dois passos em frente, olhos nos olhos das suas companheiras. Pendurado ao seu peito está um enorme bombo tradicional onde começa a malhar, rápida e furiosamente.

O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.

Maratona de três horas põe à prova a estamina física e mental
É a algazarra total no centro da cidade de Amarante no primeiro fim de semana de junho. São duas da manhã na Praça da República mas hoje, na primeira de três noites das festas da cidade, não há garantias de sono tranquilo para os residentes da zona histórica.

Pelo menos por mais umas horas. É que, em cumprimento da antiga tradição de honrar São Gonçalo, padroeiro da cidade, seis grupos de bombos tradicionais entraram em despique pouco depois do fogo-de-artifício da meia-noite. E nenhum deles está disposto a ser o primeiro a desistir. Há honra e orgulho a salvaguardar mas também já há quem desmaie de cansaço.

Entre as Rosas de Santa Maria, o primeiro grupo de bombos amarantino constituído integralmente por mulheres, ninguém cai para o lado ou desiste. Num canto da praça em frente ao Mosteiro de S. Gonçalo,  tocam de uma forma mais suave do que os seus competidores masculinos. A estratégia resulta, pois às três da manhã estão todas presentes quando vários homens já tinham saído de cena. Um, pelo menos, de ambulância.

No centro do círculo das vinte Rosas está a estudante universitária Eugénia Magalhães, de 22 anos, tocadora de caixa e uma das fundadoras do grupo. É a terceira na linha de gerações de tocadores de bombos da freguesia de Jazente onde, há cerca de 60 anos, o avô Abel fundou o primeiro grupo de Zés-Pereiras de Amarante.

Eugénia Magalhães e as Rosas de St. Maria
“Desde muito pequena que ando nos bombos, são as minhas férias de verão. Nasci no meio disto  tudo”, explica a jovem licenciada em Solicitadoria. “Mesmo em bebé, eu acompanhava a família nas deslocações por todo o país. Aliás, foi em Peniche que deixei de gatinhar e dei os meus primeiros passos durante uma atuação nas festas daquela cidade”.

Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.


E porquê uma formação só de mulheres? “O grupo surgiu com naturalidade porque somos uma freguesia onde há uma forte tradição de tocadores de bombos. As crianças, incluindo raparigas, aprendem desde  novas com os pais, muitos deles pertencentes a um dos vários grupos que temos em Jazente”, explica.
A prata da casa

Apesar de existirem registos com mais de cem anos sobre a presença de grupos de Zés-Pereiras nas festas a São Gonçalo só em 1949 é que surge o primeiro conjunto local pela mão de Abel Ribeiro, avô de Eugénia.

A partir daí, o número de grupos de bombos, uma das tradições musicais populares mais antigas a norte do rio Mondego, aumentou ao longo dos anos em Amarante. Hoje, só naquela pequena freguesia aninhada entre a serra da Aboboreira e o rio Ovelha, há três.

Em todo o concelho existem doze grupos que todos os anos percorrem Portugal de lés-a-lés em nome da música popular portuguesa. E quase todos traçam as suas origens ao primeiro formado por Abel Ribeiro.

Bombos "Amigos da Borga", Lufrei
“De uma forma ou outra, praticamente todos os mestres que vão tocar hoje nas festas do junho começaram as suas carreiras connosco, em Jazente”, explica Eugénia Magalhães.

Tradição medieval

Embora a tradição de tocadores de bombos em festas e romarias se perca na memória e nos poucos registos escritos sobre o tema, o certo é que os Zés Pereiras e os seus ruidosos bombos são parte integral de qualquer celebração religiosa ou civil.

A sua origem (também conhecidos como Zambumbos) tem sido pouco estudada mas há referências que aparecem, pontualmente, em trabalhos sobre a música popular portuguesa.

Zés-Pereiras de S. Torcato, Guimarães, em festa religiosa no séc. XIX - DR

Acredita-se, por exemplo, que a génese dos atuais grupos de bombos está ligada ao fenómeno das “bandas-de-pífaro” do século XIX, formação musical muito popular na Europa na época e cujo repertório inicial estava ligado, essencialmente, ao das bandas militares.

Contudo, há indícios de que a história deste tipo de expressão musical popular pode ir mais atrás, até à Idade Média.

“Há, sem dúvida, uma ligação entre os atuais Zés-Pereiras, as charangas medievais e o conceito de música alta que em Portugal sobreviveu às alterações dos gostos musicais do resto da Europa”, explica António Patrício, autor e historiador da região do Baixo Tâmega.

O estilo, em que grupos de charameleiros tocavam instrumentos rudimentares (trompetas, tambores, sacabuxas, charamelas e flautas) ganhou a designação pela sua alta sonoridade, uma característica ideal para os grandes e pequenos eventos ao ar livre.

Considerados primitivos e de mais fácil execução, os instrumentos, e os sons que produziam, eram tidos como o oposto da música baixa, um estilo mais suave e de fraca amplitude sonora considerado mais elegante, próprio de gente fina e com bom gosto.

“A música alta era, e ainda é, o estilo musical do povo porque os instrumentos são fabricados de materiais que estão à mão. Peles e madeira, essencialmente. São fáceis de aprender e de utilizar e, portanto, sobreviveram até aos dias de hoje”, explica o autor amarantino.

E o futuro?

Neste verão, e tal como tem acontecido nos últimos 60 anos, não há descanso para os Zambumbos de Amarante. O de Jazente, com cerca de 50 elementos, tem todos os fins-de-semana ocupados até setembro.

“Vamos a Peniche, a Viana, Bilhó (Vila Real), Alentejo, Algarve e, no passado, já fomos chamados a França, Brasil e Espanha”, diz Eugénia Magalhães. “Aliás notamos que temos mais atuações este ano”, sublinha.

E afasta qualquer dúvida sobre a falta de participação dos jovens nos grupos de bombos da região: “A tradição é muito forte e sempre houve uma atração pela atividade por parte dos mais jovens. Posso dizer que, pelo menos da minha parte, e mesmo que me tenha licenciado, que nunca irei desistir dos bombos. Esta é a minha vida”.

domingo, 20 de maio de 2012

ADAmarante domina slalom de canoagem no Tâmega


Os atletas de canoagem da Associação Desportiva de Amarante dominaram a competição de slalom que se realizou naquela cidade do Baixo Tâmega neste fim de semana, numa prova organizada pela Federação Portuguesa de Canoagem e o Aventura Marão Clube.

Cristiano Duarte e José Carvalho rumo ao primeiro lugar em C1 Masculino-Sénior
- foto Paulo Alexandre Teixeira


No total, os canoístas da  ADAmarante arrecadaram 209 pontos coletivos, seguidos de perto pelo Aventura Marão Clube que, para além dos 203 pontos totais, ainda colocou três dos seus atletas no pódio da categoria K1 Masculino-Infantis.

A  ADAmarante alcançou vários primeiros e segundos lugares nesta competição, com destaque para a categoria C2 Masculino-Sénior onde a duplas Cristinano Duarte/José Carvalho e Rui Ferreira/ Hélder Ferreira subiram ao primeiro e segundo lugares do pódio, respetivamente.

Na competição feminina coube aos visitantes do Clube Náutico de Fafe (CNFafe) o domínio em várias categorias, nomeadamente Marta Noval (C1 Feminino-Sénior) e Vânia Fernandes (K1 Feminino-Júnior).

Marta Noval, do CNFafe arrecadou primeiro lugar em C1 Feminino - Sénior
- foto Paulo Alexandre Teixeira


Contudo, a última palavra nesta categoria coube às equipas da casa em K1 Feminino-Sénior que ocuparam os três lugares do pódio: Sara Bastos, da ADAmarante, em primeiro, seguida por Ana Gomes (segundo) e Carolina Gomes (terceiro), ambas do Aventura Marão Clube.

Esta prova, a contar para a Taça Nacional de Slalom, ocorreu com dois meses de atraso devido à seca que, em Março deste ano, contribuiu para um nível de água no rio Tâmega abaixo do mínimo necessário para se realizar a competição.

ADAmarante conquista o primeiro lugar em equipas
- foto Paulo Alexandre Teixeira


Ainda de notar a ausência do Águas Bravas Clube, uma  outra organização amarantina de canoagem e  atual titular da Taça de Portugal que, por motivos de compromissos internacionais inadiáveis, não se fez representar nesta competição.

Portugal garante presença nos Jogos Olímpicos de Londres

A canoagem nacional brilhou esta semana na I Taça do Mundo de Velocidade que acabou hoje e donde saíram vários atletas portugueses medalhados.

A dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva, em K2 1000 metros, alcançaram a medalha de Ouro na prova de qualificação Europeia para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, o que lhes garantiu de imediato a presença naquela competição.

Adicionalmente, Portugal alcançou duas Medalhas de Bronze, em K2 1000 metros Masculino, mais uma vez com a dupla Fernando Pimenta e Emanuel Silva e com o K4 500 metros Feminino de Helena Rodrigues, Teresa Portela, Joana Vasconcelos e Beatriz Gomes.



Nesta competição estiveram ainda em prova mais 7 embarcações Portuguesas, das quais se destaca Teresa Portela que conquistou a presença na Final A de K1 200 metros, tendo terminado a prova no 9º lugar.

Uma referência ainda para Emanuel Silva que foi 4º na prova dos 5000 metros já esta tarde.

Portugal termina assim a presença nesta primeira competição oficial de 2012, regressando amanhã, 21 de Maio a Portugal, onde irá continuar a sua preparação para Londres 2012 e também para o Campeonato da Europa de Séniores a realizar no mês de Junho na Croácia.

Paulo Alexandre Teixeira c/ FPC




terça-feira, 15 de maio de 2012

Canonical disponibiliza Linux Ubuntu 12.04


A empresa sul-africana Canonical lançou a mais recente atualização da sua distribuição do sistema operativo Linux, denominada oficialmente “Ubuntu 12.04 LTS Precise Pangolin”, numa altura em que o mercado dos sistemas operativos se agita com o lançamento iminente do Windows 8.



A nova versão apresenta uma interface mais refinada do gestor de tarefas Unity, uma novidade introduzida na distribuição anterior do Ubuntu (11.04) que foi recebida com várias críticas quanto à sua funcionalidade.

“ O Unity foi bastante refinado desde então e tem sido bem avaliado tanto pelos novos utilizadores como pelos mais avançados”, disse, em comunicado de imprensa, o vice-presidente de comunicações da Canonical, Steve George.

O lançamento da nova distribuição Ubuntu acontece numa altura em que o mercado de sistemas operativos se agita com a disponibilização de versões "beta" do Windows 8 pela Microsoft.

Oferecida de forma gratuita, podendo ser descarregado no site da empresa, o Ubuntu 12.04 aponta claramente a um leque alargado de utilizadores e em particular ao segmento profissional e empresarial com uma oferta de apoio online e atualizações gratuitas durante os próximos cinco anos.

Adicionalmente, o novo sistema operativo inclui a suite Libreoffice, uma coleção de ferramentas equivalentes e compatíveis com o Microsoft Office, código mais robusto que permite tempos de início de sessão mais rápidos e maior autonomia de bateria, uma funcionalidade pensada claramente para o segmento dos notebooks.



Outra novidade que atrai ainda as atenções de observadores da indústria é a inclusão nesta distribuição de dois jogos da empresa EA Games-Electronic Arts, uma das maiores casas de software deste género o que, para muitos, é considerado com o sinal que o sistema operativo Linux está finalmente preparado para explorar este nicho do mercado.