terça-feira, 15 de maio de 2012

Canonical disponibiliza Linux Ubuntu 12.04


A empresa sul-africana Canonical lançou a mais recente atualização da sua distribuição do sistema operativo Linux, denominada oficialmente “Ubuntu 12.04 LTS Precise Pangolin”, numa altura em que o mercado dos sistemas operativos se agita com o lançamento iminente do Windows 8.



A nova versão apresenta uma interface mais refinada do gestor de tarefas Unity, uma novidade introduzida na distribuição anterior do Ubuntu (11.04) que foi recebida com várias críticas quanto à sua funcionalidade.

“ O Unity foi bastante refinado desde então e tem sido bem avaliado tanto pelos novos utilizadores como pelos mais avançados”, disse, em comunicado de imprensa, o vice-presidente de comunicações da Canonical, Steve George.

O lançamento da nova distribuição Ubuntu acontece numa altura em que o mercado de sistemas operativos se agita com a disponibilização de versões "beta" do Windows 8 pela Microsoft.

Oferecida de forma gratuita, podendo ser descarregado no site da empresa, o Ubuntu 12.04 aponta claramente a um leque alargado de utilizadores e em particular ao segmento profissional e empresarial com uma oferta de apoio online e atualizações gratuitas durante os próximos cinco anos.

Adicionalmente, o novo sistema operativo inclui a suite Libreoffice, uma coleção de ferramentas equivalentes e compatíveis com o Microsoft Office, código mais robusto que permite tempos de início de sessão mais rápidos e maior autonomia de bateria, uma funcionalidade pensada claramente para o segmento dos notebooks.



Outra novidade que atrai ainda as atenções de observadores da indústria é a inclusão nesta distribuição de dois jogos da empresa EA Games-Electronic Arts, uma das maiores casas de software deste género o que, para muitos, é considerado com o sinal que o sistema operativo Linux está finalmente preparado para explorar este nicho do mercado.

Taxa de suicídio acima das duas ocorrências por dia


A média de suicídios em Portugal já ultrapassa os dois por dia e há uma tendência para continuar a aumentar, avisou em Amarante o médico forense José Eduardo Pinto da Costa.

Numa palestra que, a convite da Camara Municipal, proferiu naquela cidade, o médico e professor universitário alertou para um dos perigos que os idosos portugueses enfrentam na sociedade moderna.



“Há (entre os médicos) uma preocupação que a taxa continue a aumentar, fomentada, em parte, pela atual crise financeira”, disse Pinto da Costa.

Desde 2008 que vários setores da medicina em Portugal alertam para o aumento das taxas de mortes devidas ao suicídio que, a partir de 2009, ultrapassaram as duas por dia.

Apesar duma dificuldade em manter dados atualizados neste campo (os últimos números do Instituto Nacional de Estatística datam de 2010), vários membros da comunidade científica e médica portuguesas têm alertado para uma subida, pequena mas gradual, do número de suicídios em Portugal.

O tema suicídio fez parte de uma apresentação elaborada sobre a condição da terceira idade em Portugal que esgotou a lotação sentada do auditório da Biblioteca Albano Sardoeira.

É preciso falar mais sobre a eutanásia em Portugal

De forma exaustiva mas muito compreensiva, o médico forense e professor universitário abordou, ao seu estilo único, tópicos diversos como o sexo na terceira idade, a saúde mental dos idosos e ainda ofereceu conselhos em como manter uma vida saudável.

José Pinto da Costa reservou para o final da sua intervenção o tema mais controverso da eutanásia, uma atividade de suicídio assistido que é considerado um crime em Portugal e em muitos países da Europa.

Apesar de defender que a discussão à volta desta prática tem que ser feita, o médico natural de Cedofeita, no Porto, fez questão de sublinhar que é pessoalmente contra a eutanásia.

“Sei que é uma posição ambígua mas, moralmente, sou contra a eutanásia. Contudo, há muitos fatores e variáveis neste tema. Mas como médico, posso compreender porque é necessário abordar este tema e fazer alterações à legislação”, explicou.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Amarante: Turismo como fator de desenvolvimento da região


O concelho de Amarante vai ser um dos primeiros destinos turísticos presentes na loja interativa da Turismo Porto e Norte a inaugurar no mês de Maio, no aeroporto Sá Carneiro, anunciou o presidente daquela entidade regional de Turismo, Melchior Moreira.

O anúncio foi feito em Amarante, no passado dia 5, na Casa das Artes daquela cidade, no âmbito de uma conferência dedicada ao contributo do turismo para o concelho e para a região.

"Há que passar das palavras aos atos" - Melchior Moreira (esq.)
foto: Paulo Alexandre Teixeira

Durante a sua intervenção, Melchior Moreira explicou que o turismo está neste momento posicionado para ser um dos fatores de desenvolvimento das economias locais e regionais, que se debatem com os menores índices de crescimento de que há memória.

“Mas há que passar das palavras aos atos. O termo “turismo” tem sido maltratado pelos políticos nacionais: está patente nos discursos mas é preciso passar aos atos”, alertou.

O presidente da Turismo e Norte sublinhou ainda que é essencial financiar projetos na área, promover nos mercados estrangeiros e explicou que o turismo deve ser encarado como um negócio onde a participação da iniciativa privada devia ser incentivada.

“É preciso lembrar que o turista moderno não vai à procura de um destino mas sim de um produto estratégico. Esta tem sido uma das apostas que a Turismo e Norte tem vindo a fazer ao longo dos anos e que pretende alargar a todos os distritos do norte de Portugal”, concluiu Melchior Moreira.

Rota do Românico: o produto estratégico da região

Na segunda intervenção da conferência, a diretora do programa da Rota do Românico dos vales do Sousa e Tâmega disse que o seu projeto pode ajudar a economia deste núcleo territorial, onde se regista a terceira maior concentração de população a nível nacional.

"Amarante tem recursos e um sentido de estar" - Rosário Correia Machado
foto: Paulo Alexandre Teixeira


“Como um produto estratégico, a Rota pode ajudar no combate à crise”, afirmou ainda  Rosário Correia Machado, durante a apresentação deste projeto que abarca dezenas de concelhos da região.

Iniciada há catorze anos na zona do Vale do Sousa, a Rota do Românico expandiu recentemente a sua atividade para o vale do Tâmega, onde tem procedido à recuperação de património para integrar num projeto que tem tido uma grande adesão por parte das autarquias locais.

“Em particular, Amarante tem recursos e um sentido de estar nesta questão”, elogiou a diretora do programa, sublinhando ainda que os efeitos do esforço e trabalho de catorze anos já se sentem:

“A Rota está a crescer. No primeiro trimestre deste ano tivemos um aumento de visitas em cerca de 70 por cento, comparado com o ano passado. Em particular, o mês de Março de 2012 foi, sem dúvidas, o mais movimentado de sempre desde a abertura da rota ao público”, concluiu.

As Conferências de Amarante

O ciclo de conferências sobre Amarante foi lançado em 2010 pelo Fórum Amarante XXI, um grupo de pessoas de diversas ideologias com o propósito de servir como um elo de ligação entre os amarantinos, dando visibilidade às suas realidades e preocupações.

O projeto tem abordado uma leque de temas diversificado como a política, cidadania, o desenvolvimento sustentável e o papel das redes sociais e das organizações informais, entre outros.

Até ao final deste ano prevê-se a realização de mais duas conferências, a ultima das quais encerrará o ciclo, em meados do Outono.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia Mundial da Imprensa na UTAD


Em Portugal não existe um problema de falta liberdade de imprensa em si mas há um conjunto de fatores económicos que afetam a capacidade dos órgãos de comunicação social em realizar o seu trabalho, tanto a nível regional como nacional.

Esta foi uma das conclusões sobre o tema da liberdade de imprensa a nível nacional e local, que esteve em discussão ontem na Universidade de Trás-os-Montes e Vila Real, durante um debate realizado no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa organizado pelo Departamento de Letras, Arte e Cultura daquele estabelecimento de ensino superior.

Debate juntou jornalistas locais e nacionais na UTAD.
imagem: Ana Fernandes


“A liberdade de imprensa está também ligada à capacidade, ou falta dela, dos órgãos de comunicação social, nomeadamente a nível regional, em manterem jornalistas nas suas redações”, explicou o radialista Paulo Vilela.

Durante a sua intervenção, o jornalista da radio M80 adiantou que há muito trabalho jornalístico que fica a meio e que acaba por não ser publicado porque há falta de condições para verificar toda a informação que chega diariamente aos jornais, rádios e televisões locais.

Rui Sá, jornalista da RTP, alertou que o mesmo problema afeta as representações de órgãos de comunicação social nacionais em regiões do interior, onde o “tamanho mínimo das redações não dá, muitas vezes, condições para refletir sobre o trabalho que fazemos”.

No debate, que se realizou na sessão da manhã, estiveram ainda presentes o repórter de imagem da SIC, Miguel Costa, José Paulo Santos (TVI), Luís Mendonça (Universidade FM), Manuela Carneiro (SIC), o consultor de comunicação João Oliveira e Madeira Pinto, em representação da Câmara Municipal de Vila Real.

A jornalista da SIC apontou, por seu lado, as práticas "pouco éticas" de alguns jornalistas que afetam o trabalho doutros, que acabam por encontrar dificuldades, resistência e por vezes ameaças.

“Os jornalistas são muitas vezes vistos como o bicho-papão”, explicou Manuela Carneiro, que sublinhou ser importante ter “uma dose de bom senso” quando se realizam trabalhos jornalísticos sobre matérias mais sensíveis.

“O jornalista tem poder e o trabalho que faz pode, muitas vezes, destruir uma vida. O nosso trabalho não é prejudicar a vida dos outros”, concluiu.

Após uma pausa para almoço, o Dia da Liberdade de Imprensa foi ainda assinalado com o visionamento da curta-metragem O Carteiro, da realizadora Cláudia Alves, uma entrevista online ao jornalista Nuno Andrade Ferreira, da Radio Morabeza (Cabo Verde) e o lançamento de dezenas de balões em homenagem simbólica aos 62 profissionais de jornalismo mortos em 2011.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fotoreportagem: Credo




Na noite de sexta-feira santa, primeiro dia das celebrações da Páscoa cristã, a cidade de Amarante desliga a sua iluminação pública para dar passagem à Procissão Esse Homo, vulgarmente conhecida como a "Procissão das Trévolas".

Durante várias horas, centenas de crentes e dignitários locais acompanham por várias paróquias da cidade a viagem de um caixão de vidro contendo uma efígie de Cristo falecido, visível graças a um engenhoso sistema de iluminação interior.

Apesar da escuridão em que a cidade mergulha, o evento ganha vida pelo súbito estrépito das trévolas e pela presença de centenas de velas e candeeiros a óleo que, ao passo de composições musicais solenes da Banda Musical de Amarante,  desfilam ao lado do caixão de Cristo.

(nota: selecione o símbolo com quatro setas apontadas em direções diagonais, no canto inferior direito, para ver o slideshow em tamanho real).

- Paulo Alexandre Teixeira

quinta-feira, 29 de março de 2012

Reportagem: Tripas aos Molhos, um capítulo na história de Vila Real


Sobejamente aduladas pelos apreciadores do prato simbólico de tudo quanto é Norte, as tripas aos molhos de Vila Real são uma especialidade gastronómica que encerra em si vários capítulos da história desta cidade e do engenho do povo transmontano face à dureza duma vida em isolamento no interior do Portugal "profundo".


Direitos Reservados - cortesia Restaurante Chaxoila

A gastronomia transmontana está intimamente ligada às inúmeras estórias anónimas de homens e mulheres que, durante anos a fio, desafiaram os rigores de um existência insulada e encerrada entre montanhas e que se faziam à estrada, quer fizesse sol, quer caísse neve, em direção à capital de Trás-Os-Montes, confortavelmente aninhada entre os sopés das serras do Marão e do Alvão.

Falar dos comeres e beberes desta região é falar essencialmente da mulher transmontana que na sua cozinha, entre potes de ferro e o fumo das lareiras, puxou pela imaginação e pelo engenho anos a fio para fazer o melhor que podia do que a terra, pouco dada a grandes culturas, oferecia.

E apesar de ser possível, hoje em dia, consultar diversos livros dedicados ao tema, a história tem mais sabor quando é contada por um dos seus maiores ícones: Dona Fernanda Brito, fundadora do restaurante Chaxoila, onde nasceu, há mais de seis décadas, o prato das tripas aos molhos.

Hoje com 87 anos de idade,  Fernanda "Chaxoila" lembra-se claramente de Roselas, na freguesia de Borbela, como um lugar ermo por onde passava um simples caminho no que é hoje entrada norte da cidade, na estrada nacional N2, entre Chaves e Vila Real.

"Fiquei com aquela imagem na cabeça das tripas enroladas (de Ponte de Lima)"
- foto por Paulo Alexandre Teixeira


“Em 1947 isto era praticamente um monte atravessado por um carreiro de terra batida. Era tão ermo que nem capoeira tinha para as galinhas, elas andavam por aí à solta”, conta, à mesa da sua casa, a escassos metros do restaurante que fundou e que ainda hoje existe.

Pouco depois de se casar, a progenitora das tripas aos molhos, natural de Braga, abriu há precisamente 64 anos, uma pequena mercearia de aldeia que granjeou grande importância entre os habitantes da freguesia e viajantes.

Estrategicamente localizada, a venda rapidamente se transformou numa taberna que chegou a servir, semanalmente, uma pipa de vinho (cerca de 500 litros), centenas de quilos de pão e broas, ovos e outros produtos a um leque cada vez maior de clientes.

“E uma coisa puxou pela outra: pediam-me uns petiscos para acompanhar o copo e lá fomos arranjando o que tínhamos à mão. À minha primeira receita da casa chamei de Ovos da Índia, quem eram simplesmente ovos cozidos em água com cebolas. Os clientes adoravam o sabor e achei piada de que se admiravam com a cor que a cebola dava ao ovo, que ficava um pouco acastanhado”.

Foi durante uma visita a Ponte de Lima que viu pela primeira vez tripas enfarinhadas, um prato local em que as tripas de vitela eram servidas enroladas e recheadas com farinha condimentada.

“Fiquei com aquela imagem na cabeça. Meses mais tarde, estava a falar com uma pessoa que normalmente me vendia carne e que ia deitar fora umas tripas de vitela, muito sujas. Pedi-lhas e ela até me agradeceu”, explica ainda D. Fernanda.

Durante dois dias, encerrada na cozinha que ao longo de quase 50 anos de trabalho nunca viu a presença doutra cozinheira, a “Chaxoila” laborou à volta das tripas, que foram lavadas várias vezes em água a ferver e diligentemente raspadas.

Lembrando-se da viagem a Ponte de Lima, experimentou enrolar umas tripas mais grossas em presunto, chouriço e um pouco de salsa. “E depois, fiz-lhe um lacinho com uma tripa mais fininha. Foi um sucesso enorme no primeiro dia em que as servi”, relembra.

DR- cortesia Restaurante Chaxoila

Incentivada pelo sucesso do prato, a taberna ganhou o nome de Chaxoila e transformou-se na casa de pasto e dormidas mais famosa de Vila Real. Ao longo dos anos, o pitéu foi copiado e reproduzido em dezenas de restaurantes da região mas Fernanda Brito guardou para si uma receita do “molho especial” que fazia as suas tripas aos molhos únicas na região.

“Custou-me contar o segredo quando finalmente passei o restaurante por motivos de saúde. Aliás, acho que a primeira proprietária não mereceu que lho contasse. Mas os atuais donos do Chaxoila merecem porque gosto muito do que fizeram com o lugar”, conclui.

Ainda no mesmo local de há 60 anos, o Chaxoila é hoje propriedade do empresário local Fernando Santos e da sua família, o terceiro proprietário que o restaurante conheceu desde que Fernanda Brito deixou as lides da cozinha.

Apesar de ser um local muito diferente do original Chaxoila, o restaurante é ainda conhecido como a “Catedral” das tripas aos molhos que, às quartas e sábados, continuam a adornar o cardápio ao lado de outros pratos típicos transmontanos como a mão de vitela com grão-de-bico (outra “invenção” de Fernanda Brito), carne à Chaxoila e leite-creme queimado à moda antiga.

Tripas, vitela e doces da casa fazem ainda parte do cardápio do Chaxoila do século XXI
- foto por Paulo Alexandre Teixeira

“Tornamos o restaurante um pouco maior e aproveitamos o espaço da esplanada para sentar mais dezoito pessoas”, explica José Carlos Santos, atual gerente, durante uma hora de almoço em que os clientes faziam, pacientemente, fila à espera de uma mesa.

“Ainda hoje vem gente de longe que se lembra do Chaxoila de antigamente e que à conta das tripas, relembram inúmeras histórias da Vila Real daqueles tempos”, conclui.

Paulo Alexandre Teixeira

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Que eu vou p'ra Angola"

Já não é a primeira vez que (nem vai ser a última) que Angola me entra pelas conversas adentro. Aparece nos momentos mais inoportunos (e oportunos) e nos mais diversos locais: no supermercado, num jogo de futebol, no alto duma serra, ao balcão de uma loja.

Apanha-me sempre de surpresa. Faz-me engolir em seco umas quantas vezes. Lembra-me daquela pele de jiboia há muito descartada, das canções da primeira classe e um truz-truz inesperado à porta de casa, em 75.

 “Vou para Angola”, disse-me aqui há dias um jovem informático. A declaração surgiu assim, de repente, como uma leitura de sentença inesperada, no início de mais uma daquelas conversas  entre pessoas que mal se conhecem.

Apanhado mais uma vez. Acusei o toque.

 “Então, vai para Angola. Mas porquê?”

“Isto aqui, não dá para viver”, retorquiu.

Aqui há umas três décadas atrás, num domingo de manhã, um casal de crianças, ele tão embriagado que mal se aguentava nas pernas, bateu-nos à porta e mostrou-nos um papelinho sarrabiscado com o nosso endereço.

“É aqui que vive o tio Manel?”, perguntou ela. Só tinham aquele pedaço de papel e a roupa que traziam no corpo. O voo desde Luanda fora alucinante: o moço, habituado a espaços maiores, saltou por tudo quanto era canto naquele avião.

A acalmia só se instalou quando as hospedeiras finalmente o prenderam no lugar e lhe encheram o colo de garrafinhas de uísque e vinho do Porto.

Angola reapareceu-nos de novo, assim de repente, nas nossas conversas há cerca de quatro anos, quando ocorreu a primeira machadada, dada lá longe em Wall Street, no sistema capitalista global há muito fora de controlo.

As economias de muitos países, Portugal incluído, entraram em velocidade de cruzeiro rumo ao desemprego, à precaridade e à ruína. À vergonha.

E África acenou, mais uma vez, aos novos-desesperados com promessas de mel nas fontes, pão nas árvores e dólares, muitos dólares, ao fim do mês.

 “É uma oportunidade de ouro mas só para quem sabe aproveitar”, disseram-me um dia, brilho estranho plantado num olhar que já só enxergava para além do horizonte.

As despedidas, para quem cá vai ficando, foram o que mais nos custou a habituar. “Até um dia destes”, respondi uma vez. Muito diferente dos adeuses a alguém que vai para, sei lá, França ou Suíça: “Até ao Natal” ou “Até agosto”.

Os regressos, esses são ainda mais estranhos. As conversas mudaram um pouco de tom, resumem-se a breves sessões de pergunta e resposta que acabam com sussurros, caretas e piscadelas:

“É pá, aquilo… tem que se lhe diga”, responderam-me aqui há dias. “Mas vale a pena”.

“Mas uma pessoa safa-se lá ou não?” perguntei?

Só me respondeu aquele brilho estranho, plantado num olhar que já só enxergava para lá do horizonte.