Sobejamente aduladas pelos apreciadores do prato simbólico de tudo quanto é Norte, as tripas aos molhos de Vila Real são uma especialidade gastronómica que encerra em si vários capítulos da história desta cidade e do engenho do povo transmontano face à dureza duma vida em isolamento no interior do Portugal "profundo".
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| Direitos Reservados - cortesia Restaurante Chaxoila |
A gastronomia transmontana está intimamente ligada às inúmeras estórias anónimas de homens e mulheres que, durante anos a fio, desafiaram os rigores de um existência insulada e encerrada entre montanhas e que se faziam à estrada, quer fizesse sol, quer caísse neve, em direção à capital de Trás-Os-Montes, confortavelmente aninhada entre os sopés das serras do Marão e do Alvão.
Falar dos comeres e beberes desta região é falar essencialmente da mulher transmontana que na sua cozinha, entre potes de ferro e o fumo das lareiras, puxou pela imaginação e pelo engenho anos a fio para fazer o melhor que podia do que a terra, pouco dada a grandes culturas, oferecia.
E apesar de ser possível, hoje em dia, consultar diversos livros dedicados ao tema, a história tem mais sabor quando é contada por um dos seus maiores ícones: Dona Fernanda Brito, fundadora do restaurante Chaxoila, onde nasceu, há mais de seis décadas, o prato das tripas aos molhos.
Hoje com 87 anos de idade, Fernanda "Chaxoila" lembra-se claramente de Roselas, na freguesia de Borbela, como um lugar ermo por onde passava um simples caminho no que é hoje entrada norte da cidade, na estrada nacional N2, entre Chaves e Vila Real.
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"Fiquei com aquela imagem na cabeça das tripas enroladas (de Ponte de Lima)"
- foto por Paulo Alexandre Teixeira |
“Em 1947 isto era praticamente um monte atravessado por um carreiro de terra batida. Era tão ermo que nem capoeira tinha para as galinhas, elas andavam por aí à solta”, conta, à mesa da sua casa, a escassos metros do restaurante que fundou e que ainda hoje existe.
Pouco depois de se casar, a progenitora das tripas aos molhos, natural de Braga, abriu há precisamente 64 anos, uma pequena mercearia de aldeia que granjeou grande importância entre os habitantes da freguesia e viajantes.
Estrategicamente localizada, a venda rapidamente se transformou numa taberna que chegou a servir, semanalmente, uma pipa de vinho (cerca de 500 litros), centenas de quilos de pão e broas, ovos e outros produtos a um leque cada vez maior de clientes.
“E uma coisa puxou pela outra: pediam-me uns petiscos para acompanhar o copo e lá fomos arranjando o que tínhamos à mão. À minha primeira receita da casa chamei de Ovos da Índia, quem eram simplesmente ovos cozidos em água com cebolas. Os clientes adoravam o sabor e achei piada de que se admiravam com a cor que a cebola dava ao ovo, que ficava um pouco acastanhado”.
Foi durante uma visita a Ponte de Lima que viu pela primeira vez tripas enfarinhadas, um prato local em que as tripas de vitela eram servidas enroladas e recheadas com farinha condimentada.
“Fiquei com aquela imagem na cabeça. Meses mais tarde, estava a falar com uma pessoa que normalmente me vendia carne e que ia deitar fora umas tripas de vitela, muito sujas. Pedi-lhas e ela até me agradeceu”, explica ainda D. Fernanda.
Durante dois dias, encerrada na cozinha que ao longo de quase 50 anos de trabalho nunca viu a presença doutra cozinheira, a “Chaxoila” laborou à volta das tripas, que foram lavadas várias vezes em água a ferver e diligentemente raspadas.
Lembrando-se da viagem a Ponte de Lima, experimentou enrolar umas tripas mais grossas em presunto, chouriço e um pouco de salsa. “E depois, fiz-lhe um lacinho com uma tripa mais fininha. Foi um sucesso enorme no primeiro dia em que as servi”, relembra.
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| DR- cortesia Restaurante Chaxoila |
Incentivada pelo sucesso do prato, a taberna ganhou o nome de Chaxoila e transformou-se na casa de pasto e dormidas mais famosa de Vila Real. Ao longo dos anos, o pitéu foi copiado e reproduzido em dezenas de restaurantes da região mas Fernanda Brito guardou para si uma receita do “molho especial” que fazia as suas tripas aos molhos únicas na região.
“Custou-me contar o segredo quando finalmente passei o restaurante por motivos de saúde. Aliás, acho que a primeira proprietária não mereceu que lho contasse. Mas os atuais donos do Chaxoila merecem porque gosto muito do que fizeram com o lugar”, conclui.
Ainda no mesmo local de há 60 anos, o
Chaxoila é hoje propriedade do empresário local Fernando Santos e da sua família, o terceiro proprietário que o restaurante conheceu desde que Fernanda Brito deixou as lides da cozinha.
Apesar de ser um local muito diferente do original Chaxoila, o restaurante é ainda conhecido como a “Catedral” das tripas aos molhos que, às quartas e sábados, continuam a adornar o cardápio ao lado de outros pratos típicos transmontanos como a mão de vitela com grão-de-bico (outra “invenção” de Fernanda Brito), carne à Chaxoila e leite-creme queimado à moda antiga.
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Tripas, vitela e doces da casa fazem ainda parte do cardápio do Chaxoila do século XXI
- foto por Paulo Alexandre Teixeira |
“Tornamos o restaurante um pouco maior e aproveitamos o espaço da esplanada para sentar mais dezoito pessoas”, explica José Carlos Santos, atual gerente, durante uma hora de almoço em que os clientes faziam, pacientemente, fila à espera de uma mesa.
“Ainda hoje vem gente de longe que se lembra do Chaxoila de antigamente e que à conta das tripas, relembram inúmeras histórias da Vila Real daqueles tempos”, conclui.
Paulo Alexandre Teixeira