quinta-feira, 29 de março de 2012

Reportagem: Tripas aos Molhos, um capítulo na história de Vila Real


Sobejamente aduladas pelos apreciadores do prato simbólico de tudo quanto é Norte, as tripas aos molhos de Vila Real são uma especialidade gastronómica que encerra em si vários capítulos da história desta cidade e do engenho do povo transmontano face à dureza duma vida em isolamento no interior do Portugal "profundo".


Direitos Reservados - cortesia Restaurante Chaxoila

A gastronomia transmontana está intimamente ligada às inúmeras estórias anónimas de homens e mulheres que, durante anos a fio, desafiaram os rigores de um existência insulada e encerrada entre montanhas e que se faziam à estrada, quer fizesse sol, quer caísse neve, em direção à capital de Trás-Os-Montes, confortavelmente aninhada entre os sopés das serras do Marão e do Alvão.

Falar dos comeres e beberes desta região é falar essencialmente da mulher transmontana que na sua cozinha, entre potes de ferro e o fumo das lareiras, puxou pela imaginação e pelo engenho anos a fio para fazer o melhor que podia do que a terra, pouco dada a grandes culturas, oferecia.

E apesar de ser possível, hoje em dia, consultar diversos livros dedicados ao tema, a história tem mais sabor quando é contada por um dos seus maiores ícones: Dona Fernanda Brito, fundadora do restaurante Chaxoila, onde nasceu, há mais de seis décadas, o prato das tripas aos molhos.

Hoje com 87 anos de idade,  Fernanda "Chaxoila" lembra-se claramente de Roselas, na freguesia de Borbela, como um lugar ermo por onde passava um simples caminho no que é hoje entrada norte da cidade, na estrada nacional N2, entre Chaves e Vila Real.

"Fiquei com aquela imagem na cabeça das tripas enroladas (de Ponte de Lima)"
- foto por Paulo Alexandre Teixeira


“Em 1947 isto era praticamente um monte atravessado por um carreiro de terra batida. Era tão ermo que nem capoeira tinha para as galinhas, elas andavam por aí à solta”, conta, à mesa da sua casa, a escassos metros do restaurante que fundou e que ainda hoje existe.

Pouco depois de se casar, a progenitora das tripas aos molhos, natural de Braga, abriu há precisamente 64 anos, uma pequena mercearia de aldeia que granjeou grande importância entre os habitantes da freguesia e viajantes.

Estrategicamente localizada, a venda rapidamente se transformou numa taberna que chegou a servir, semanalmente, uma pipa de vinho (cerca de 500 litros), centenas de quilos de pão e broas, ovos e outros produtos a um leque cada vez maior de clientes.

“E uma coisa puxou pela outra: pediam-me uns petiscos para acompanhar o copo e lá fomos arranjando o que tínhamos à mão. À minha primeira receita da casa chamei de Ovos da Índia, quem eram simplesmente ovos cozidos em água com cebolas. Os clientes adoravam o sabor e achei piada de que se admiravam com a cor que a cebola dava ao ovo, que ficava um pouco acastanhado”.

Foi durante uma visita a Ponte de Lima que viu pela primeira vez tripas enfarinhadas, um prato local em que as tripas de vitela eram servidas enroladas e recheadas com farinha condimentada.

“Fiquei com aquela imagem na cabeça. Meses mais tarde, estava a falar com uma pessoa que normalmente me vendia carne e que ia deitar fora umas tripas de vitela, muito sujas. Pedi-lhas e ela até me agradeceu”, explica ainda D. Fernanda.

Durante dois dias, encerrada na cozinha que ao longo de quase 50 anos de trabalho nunca viu a presença doutra cozinheira, a “Chaxoila” laborou à volta das tripas, que foram lavadas várias vezes em água a ferver e diligentemente raspadas.

Lembrando-se da viagem a Ponte de Lima, experimentou enrolar umas tripas mais grossas em presunto, chouriço e um pouco de salsa. “E depois, fiz-lhe um lacinho com uma tripa mais fininha. Foi um sucesso enorme no primeiro dia em que as servi”, relembra.

DR- cortesia Restaurante Chaxoila

Incentivada pelo sucesso do prato, a taberna ganhou o nome de Chaxoila e transformou-se na casa de pasto e dormidas mais famosa de Vila Real. Ao longo dos anos, o pitéu foi copiado e reproduzido em dezenas de restaurantes da região mas Fernanda Brito guardou para si uma receita do “molho especial” que fazia as suas tripas aos molhos únicas na região.

“Custou-me contar o segredo quando finalmente passei o restaurante por motivos de saúde. Aliás, acho que a primeira proprietária não mereceu que lho contasse. Mas os atuais donos do Chaxoila merecem porque gosto muito do que fizeram com o lugar”, conclui.

Ainda no mesmo local de há 60 anos, o Chaxoila é hoje propriedade do empresário local Fernando Santos e da sua família, o terceiro proprietário que o restaurante conheceu desde que Fernanda Brito deixou as lides da cozinha.

Apesar de ser um local muito diferente do original Chaxoila, o restaurante é ainda conhecido como a “Catedral” das tripas aos molhos que, às quartas e sábados, continuam a adornar o cardápio ao lado de outros pratos típicos transmontanos como a mão de vitela com grão-de-bico (outra “invenção” de Fernanda Brito), carne à Chaxoila e leite-creme queimado à moda antiga.

Tripas, vitela e doces da casa fazem ainda parte do cardápio do Chaxoila do século XXI
- foto por Paulo Alexandre Teixeira

“Tornamos o restaurante um pouco maior e aproveitamos o espaço da esplanada para sentar mais dezoito pessoas”, explica José Carlos Santos, atual gerente, durante uma hora de almoço em que os clientes faziam, pacientemente, fila à espera de uma mesa.

“Ainda hoje vem gente de longe que se lembra do Chaxoila de antigamente e que à conta das tripas, relembram inúmeras histórias da Vila Real daqueles tempos”, conclui.

Paulo Alexandre Teixeira

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Que eu vou p'ra Angola"

Já não é a primeira vez que (nem vai ser a última) que Angola me entra pelas conversas adentro. Aparece nos momentos mais inoportunos (e oportunos) e nos mais diversos locais: no supermercado, num jogo de futebol, no alto duma serra, ao balcão de uma loja.

Apanha-me sempre de surpresa. Faz-me engolir em seco umas quantas vezes. Lembra-me daquela pele de jiboia há muito descartada, das canções da primeira classe e um truz-truz inesperado à porta de casa, em 75.

 “Vou para Angola”, disse-me aqui há dias um jovem informático. A declaração surgiu assim, de repente, como uma leitura de sentença inesperada, no início de mais uma daquelas conversas  entre pessoas que mal se conhecem.

Apanhado mais uma vez. Acusei o toque.

 “Então, vai para Angola. Mas porquê?”

“Isto aqui, não dá para viver”, retorquiu.

Aqui há umas três décadas atrás, num domingo de manhã, um casal de crianças, ele tão embriagado que mal se aguentava nas pernas, bateu-nos à porta e mostrou-nos um papelinho sarrabiscado com o nosso endereço.

“É aqui que vive o tio Manel?”, perguntou ela. Só tinham aquele pedaço de papel e a roupa que traziam no corpo. O voo desde Luanda fora alucinante: o moço, habituado a espaços maiores, saltou por tudo quanto era canto naquele avião.

A acalmia só se instalou quando as hospedeiras finalmente o prenderam no lugar e lhe encheram o colo de garrafinhas de uísque e vinho do Porto.

Angola reapareceu-nos de novo, assim de repente, nas nossas conversas há cerca de quatro anos, quando ocorreu a primeira machadada, dada lá longe em Wall Street, no sistema capitalista global há muito fora de controlo.

As economias de muitos países, Portugal incluído, entraram em velocidade de cruzeiro rumo ao desemprego, à precaridade e à ruína. À vergonha.

E África acenou, mais uma vez, aos novos-desesperados com promessas de mel nas fontes, pão nas árvores e dólares, muitos dólares, ao fim do mês.

 “É uma oportunidade de ouro mas só para quem sabe aproveitar”, disseram-me um dia, brilho estranho plantado num olhar que já só enxergava para além do horizonte.

As despedidas, para quem cá vai ficando, foram o que mais nos custou a habituar. “Até um dia destes”, respondi uma vez. Muito diferente dos adeuses a alguém que vai para, sei lá, França ou Suíça: “Até ao Natal” ou “Até agosto”.

Os regressos, esses são ainda mais estranhos. As conversas mudaram um pouco de tom, resumem-se a breves sessões de pergunta e resposta que acabam com sussurros, caretas e piscadelas:

“É pá, aquilo… tem que se lhe diga”, responderam-me aqui há dias. “Mas vale a pena”.

“Mas uma pessoa safa-se lá ou não?” perguntei?

Só me respondeu aquele brilho estranho, plantado num olhar que já só enxergava para lá do horizonte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Entrevista: Teresa Magalhães, esposa aos 17, viúva aos 23



"Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria"




Ser uma viúva muito jovem em pleno Estado Novo foi um desafio que Teresa Magalhães, natural e residente da freguesia de Gagos, em Celorico de Basto, foi forçada a enfrentar com apenas 23 anos de idade.

A antiga trabalhadora das termas de Carvalhelhos (Boticas de Barroso) que, em 1959, regressou à terra natal com três filhos ao colo e um ainda por nascer, teve que deitar de imediato mãos à obra pela sobrevivência da sua família.

Graças à forma corajosa e determinada como enfrentou os problemas da sua vida é, aos 76 anos de idade, uma das figuras mais reconhecidas da sua terra, onde dedica grande parte do seu tempo à fé católica como voluntária na paróquia local e como acompanhante de doentes ao Centro de Saúde do concelho.

Em reconhecimento pelas suas ações, a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho numa cerimónia do Dia Internacional da Mulher realizada em Braga, em 1989, onde teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Jorge Sampaio,  então Presidente da República.

Obra Aberta (OA): Como é que acabou em Boticas, depois de se casar?

Teresa Magalhães (TM): Casei-me aos 17 anos em Celorico de Basto mas depois mudamo-nos para Boticas porque era aí onde o meu marido trabalhava como mineiro, nas minas do Carvalho. Eu acabei por arranjar trabalho nas termas de Carvalhelhos, onde aprendi a dar injeções e a fazer curativos.

OA: Essa experiência como enfermeira era algo que sabia fazer?

TM: Não. Comecei a trabalhar aos quinze anos de idade mas a ajudar na preparação dos falecidos para os funerais. Ainda me lembro da primeira vez que fiz isso: a senhora que estava a vestir o morto rasgou-lhe o meiote e fui eu que lho cosi, ali mesmo no pé.

OA: Portanto, em Carvalhelhos, você teve que aprender uma nova aptidão.

TM: Não havia remédio, teve mesmo que ser. Eles não tinham ninguém na altura que pudesse fazer aquele trabalho. Eu era enfermeira mas sem estudos nenhuns (risos).

OA: Essa experiência como enfermeira acabou por lhe valer mais tarde, quando o seu marido faleceu e você regressou a Celorico de Basto…

TM: Salvou-nos a vida. Eu não podia deixar os meus filhos morrerem à fome e naquela altura havia muita miséria. Como não havia médicos nem enfermeiros em Gagos nem nas outras freguesias, comecei a dar injeções a pessoas e até mesmo a animais domésticos.

OA: Ou seja, tornou-se na enfermeira desta zona. Como era o seu dia de trabalho?

TM: Trabalhava o dia inteiro. Levantava-me muito cedo, de madrugada e passava o dia a fazer aquilo até à noite. Lembro-me que havia, em certas casas, três e mais pessoas à minha espera.

OA: E como é que se deslocava para realizar este trabalho?

TM: Sempre a pé, percorria três, quatro freguesias por dia, muitos e muitos quilómetros. Era bastante cansativo, chegava a casa muito tarde.

OA: E quanto é que cobrava pelos seus serviços?

TM: Nunca aceitei dinheiro. As pessoas tinham pena de mim, sabiam da minha situação e insistiam mas eu não queria pagamento. Em vez de dinheiro, aceitava comida: umas batatas, uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família.

OA: Mas isso bastava para se sustentar a si e a quatro mais bocas?

TM: Não e a vida era muito difícil. Um dia pedi ao meu pai mil escudos emprestados e, por sugestão de um cliente, fui a uma loja em Fafe onde comprei um cesto e algumas miudezas: pentes, sabonetes, pasta de dentes, lâminas de barbear e mais algumas coisas que não me lembro agora. Lembro-me que não chegava pra encher o cesto.

No dia seguinte, meti o cesto à cabeça e comecei a ir de porta em porta, a vender as miudezas. A princípio tive muita vergonha. A primeira cliente que visitei teve muita pena de mim, porque me conhecia bem e aos meus quatro filhos sem pai. Pagou-me e ainda me ofereceu meia broa.


"Em vez de dinheiro, aceitava comida: uns feijões, cebolas, tudo o que desse para matar a fome à família"


OA: E os seus filhos, à medida que iam crescendo, ajudavam-na nas suas lides?

TM: Naquele tempo, para quem tinha filhos na situação em que eu tinha, a única solução era pô-los fora de casa assim que possível. Quando acabaram a quarta classe, os três mais velhos seguiram logo o seu caminho, para as obras ou para servir em casas de fidalgos, no Porto. O mais pequeno ficou com os meus pais.

OA: Era uma situação difícil. Mesmo estando fora, vocês mantinham contacto uns com os outros?

TM: Sim, de vez em quando. Mas os filhos lembravam-se sempre de mim, ainda hoje se lembram. Enviavam dinheiro e com essa ajuda mais alguns trabalhos que fui fazendo, acabei por construir a minha casa, onde estamos hoje. Paguei por ela, em 1966, 25 contos. Ainda tenho as faturas ali numa gaveta.

OA: Que outros trabalhos acabou por fazer?

TM: Servi em casas de fidalgos no Porto durante uns tempos e quando abriram uma pedreira aqui à frente da minha casa, fui para lá trabalhar a separar cascalho do minério. Entretanto, abri também uma pequena mercearia numa divisão da casa, onde ainda hoje recebo clientes.

OA: E a senhora, que algumas pessoas nos disseram ser de uma das mulheres mais belas de Celorico de Basto, nunca mais se casou?

TM (Risos): Não, nunca mais. Ainda houve uns homens que anunciaram intenções mas isso não, eu não permiti. Os filhos são meus e do meu falecido marido e não permiti que outro viesse para se tornar no pai deles.

OA: Em 1989 a Câmara Municipal de Celorico de Basto convidou-a para representar o concelho no Dia Internacional da Mulher num encontro em Braga organizado pela Presidência da República. Como lhe chegou esse convite?

TM: Fiquei surpreendida pelo convite e a princípio não o aceitei. Gosto de ser discreta no meu trabalho e não gosto muito de elogios. Acho que me ficaram a conhecer pelo trabalho que faço na paróquia e por acompanhar alguns dos doentes ao Centro de Saúde. A Dra. Maria da Graça (diretora do Centro de Saúde de Celorico de Basto) é que insistiu e acabei por aceitar. Foi um dia muito bom e acabei por conhecer o presidente da República (Jorge Sampaio).

OA: E, para finalizar, qual o segredo para o sucesso da sua vida?

TM (Risos): Encarar as adversidades sem medo, estar disposta a sacrificar o corpo pela família e, acima de tudo, fé, muita fé em Deus. Eu sei que o que acabei de dizer não é ser muito humilde mas é a verdade.


"Paguei 25 contos pela minha casa em 1966. Ainda tenho as faturas ali, numa gaveta."