No concelho de
Amarante há doze grupos de bombos tradicionais popularmente conhecidos como
Zés-Pereiras. Um deles, integralmente feminino, cumpre com dedicação e grande
esforço o legado musical enraizado desde a Idade Média na
cultura popular portuguesa. É um fenómeno cultural pouco estudado mas muito apreciado por um povo que
não larga mão da tradição.
Aquela moça alta
olha para o velho relógio da torre do mosteiro de S. Gonçalo e rola os olhos
para trás em desespero. Ainda falta uma hora para o fim
e com num gesto que exala determinação, dá dois passos em frente, olhos nos
olhos das suas companheiras. Pendurado ao seu peito está um enorme bombo
tradicional onde começa a malhar, rápida e furiosamente.
O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.
O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.
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| Maratona de três horas põe à prova a estamina física e mental |
Pelo menos por mais umas horas. É que, em cumprimento da antiga tradição de honrar São Gonçalo, padroeiro da cidade, seis grupos de bombos tradicionais entraram em despique pouco depois do fogo-de-artifício da meia-noite. E nenhum deles está disposto a ser o primeiro a desistir. Há honra e orgulho a salvaguardar mas também já há quem desmaie de cansaço.
Entre as Rosas de Santa Maria, o primeiro grupo de bombos amarantino constituído integralmente
por mulheres, ninguém cai para o lado ou desiste. Num canto da praça em
frente ao Mosteiro de S. Gonçalo, tocam de uma forma mais suave do que os
seus competidores masculinos. A estratégia resulta, pois às três da manhã estão
todas presentes quando vários homens já tinham saído de cena. Um, pelo menos, de ambulância.
No centro do
círculo das vinte Rosas está a estudante universitária Eugénia Magalhães, de 22
anos, tocadora de caixa e uma das fundadoras do grupo. É a terceira na linha de
gerações de tocadores de bombos da freguesia de Jazente onde, há cerca de 60
anos, o avô Abel fundou o primeiro grupo de Zés-Pereiras de Amarante.
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| Eugénia Magalhães e as Rosas de St. Maria |
“Desde muito pequena que ando nos bombos, são as minhas férias de verão. Nasci no meio disto tudo”, explica a jovem licenciada em Solicitadoria. “Mesmo em bebé, eu acompanhava a família nas deslocações por todo o país. Aliás, foi em Peniche que deixei de gatinhar e dei os meus primeiros passos durante uma atuação nas festas daquela cidade”.
Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.
Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.
E porquê uma formação só de mulheres? “O grupo surgiu com naturalidade porque somos uma freguesia onde há uma forte tradição de tocadores de bombos. As crianças, incluindo raparigas, aprendem desde novas com os pais, muitos deles pertencentes a um dos vários grupos que temos em Jazente”, explica.
A prata da casa
Apesar de existirem
registos com mais de cem anos sobre a presença de grupos de Zés-Pereiras nas
festas a São Gonçalo só em 1949 é que surge o primeiro conjunto local pela mão de Abel Ribeiro, avô de Eugénia.
A partir daí, o
número de grupos de bombos, uma das tradições musicais populares mais antigas a
norte do rio Mondego, aumentou ao longo dos anos em Amarante. Hoje, só naquela
pequena freguesia aninhada entre a serra da Aboboreira e o rio Ovelha, há três.
Em todo o concelho
existem doze grupos que todos os anos percorrem Portugal de lés-a-lés em nome
da música popular portuguesa. E quase todos traçam as suas origens ao primeiro
formado por Abel Ribeiro.
“De uma forma ou
outra, praticamente todos os mestres que vão tocar hoje nas festas do junho
começaram as suas carreiras connosco, em Jazente”, explica Eugénia Magalhães.
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| Bombos "Amigos da Borga", Lufrei |
Tradição medieval
Embora a tradição
de tocadores de bombos em festas e romarias se perca na memória e nos poucos
registos escritos sobre o tema, o certo é que os Zés Pereiras e os seus
ruidosos bombos são parte integral de qualquer celebração religiosa ou civil.
A sua origem (também conhecidos como Zambumbos) tem sido pouco estudada mas há referências
que aparecem, pontualmente, em trabalhos sobre a música popular portuguesa.
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| Zés-Pereiras de S. Torcato, Guimarães, em festa religiosa no séc. XIX - DR |
Acredita-se, por
exemplo, que a génese dos atuais grupos de bombos está ligada ao fenómeno das
“bandas-de-pífaro” do século XIX, formação musical muito popular na Europa na
época e cujo repertório inicial estava ligado, essencialmente, ao das bandas
militares.
Contudo, há
indícios de que a história deste tipo de expressão musical popular pode ir mais
atrás, até à Idade Média.
“Há, sem dúvida,
uma ligação entre os atuais Zés-Pereiras, as charangas medievais e o conceito
de música alta que em Portugal sobreviveu às alterações dos gostos musicais do
resto da Europa”, explica António Patrício, autor e historiador da região do Baixo Tâmega.
O estilo, em que
grupos de charameleiros tocavam instrumentos rudimentares (trompetas, tambores,
sacabuxas, charamelas e flautas) ganhou a designação pela sua alta sonoridade,
uma característica ideal para os grandes e pequenos eventos ao ar livre.
Considerados
primitivos e de mais fácil execução, os instrumentos, e os sons que produziam,
eram tidos como o oposto da música baixa, um estilo mais suave e de fraca
amplitude sonora considerado mais elegante, próprio de gente fina e com bom
gosto.
“A música alta era,
e ainda é, o estilo musical do povo porque os instrumentos são fabricados de
materiais que estão à mão. Peles e madeira, essencialmente. São fáceis de
aprender e de utilizar e, portanto, sobreviveram até aos dias de hoje”, explica
o autor amarantino.
E o futuro?
Neste verão, e tal
como tem acontecido nos últimos 60 anos, não há descanso para os Zambumbos de Amarante. O de Jazente, com cerca de 50 elementos, tem todos os
fins-de-semana ocupados até setembro.
“Vamos a Peniche, a
Viana, Bilhó (Vila Real), Alentejo, Algarve e, no passado, já fomos chamados a
França, Brasil e Espanha”, diz Eugénia Magalhães. “Aliás notamos que temos mais
atuações este ano”, sublinha.
E afasta qualquer
dúvida sobre a falta de participação dos jovens nos grupos de bombos da região: “A
tradição é muito forte e sempre houve uma atração pela atividade por parte dos
mais jovens. Posso dizer que, pelo menos da minha parte, e mesmo que me tenha
licenciado, que nunca irei desistir dos bombos. Esta é a minha vida”.







