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quinta-feira, 1 de março de 2012

"Que eu vou p'ra Angola"

Já não é a primeira vez que (nem vai ser a última) que Angola me entra pelas conversas adentro. Aparece nos momentos mais inoportunos (e oportunos) e nos mais diversos locais: no supermercado, num jogo de futebol, no alto duma serra, ao balcão de uma loja.

Apanha-me sempre de surpresa. Faz-me engolir em seco umas quantas vezes. Lembra-me daquela pele de jiboia há muito descartada, das canções da primeira classe e um truz-truz inesperado à porta de casa, em 75.

 “Vou para Angola”, disse-me aqui há dias um jovem informático. A declaração surgiu assim, de repente, como uma leitura de sentença inesperada, no início de mais uma daquelas conversas  entre pessoas que mal se conhecem.

Apanhado mais uma vez. Acusei o toque.

 “Então, vai para Angola. Mas porquê?”

“Isto aqui, não dá para viver”, retorquiu.

Aqui há umas três décadas atrás, num domingo de manhã, um casal de crianças, ele tão embriagado que mal se aguentava nas pernas, bateu-nos à porta e mostrou-nos um papelinho sarrabiscado com o nosso endereço.

“É aqui que vive o tio Manel?”, perguntou ela. Só tinham aquele pedaço de papel e a roupa que traziam no corpo. O voo desde Luanda fora alucinante: o moço, habituado a espaços maiores, saltou por tudo quanto era canto naquele avião.

A acalmia só se instalou quando as hospedeiras finalmente o prenderam no lugar e lhe encheram o colo de garrafinhas de uísque e vinho do Porto.

Angola reapareceu-nos de novo, assim de repente, nas nossas conversas há cerca de quatro anos, quando ocorreu a primeira machadada, dada lá longe em Wall Street, no sistema capitalista global há muito fora de controlo.

As economias de muitos países, Portugal incluído, entraram em velocidade de cruzeiro rumo ao desemprego, à precaridade e à ruína. À vergonha.

E África acenou, mais uma vez, aos novos-desesperados com promessas de mel nas fontes, pão nas árvores e dólares, muitos dólares, ao fim do mês.

 “É uma oportunidade de ouro mas só para quem sabe aproveitar”, disseram-me um dia, brilho estranho plantado num olhar que já só enxergava para além do horizonte.

As despedidas, para quem cá vai ficando, foram o que mais nos custou a habituar. “Até um dia destes”, respondi uma vez. Muito diferente dos adeuses a alguém que vai para, sei lá, França ou Suíça: “Até ao Natal” ou “Até agosto”.

Os regressos, esses são ainda mais estranhos. As conversas mudaram um pouco de tom, resumem-se a breves sessões de pergunta e resposta que acabam com sussurros, caretas e piscadelas:

“É pá, aquilo… tem que se lhe diga”, responderam-me aqui há dias. “Mas vale a pena”.

“Mas uma pessoa safa-se lá ou não?” perguntei?

Só me respondeu aquele brilho estranho, plantado num olhar que já só enxergava para lá do horizonte.