Já não é a primeira vez que (nem vai ser a última) que
Angola me entra pelas conversas adentro. Aparece nos momentos mais inoportunos
(e oportunos) e nos mais diversos locais: no supermercado, num jogo de futebol,
no alto duma serra, ao balcão de uma loja.
Apanha-me sempre de surpresa. Faz-me engolir em seco umas
quantas vezes. Lembra-me daquela pele de jiboia há muito descartada, das
canções da primeira classe e um truz-truz inesperado à porta de casa, em 75.
“Vou para Angola”,
disse-me aqui há dias um jovem informático. A declaração surgiu assim, de
repente, como uma leitura de sentença inesperada, no início de mais uma
daquelas conversas entre pessoas que mal se conhecem.
Apanhado mais uma vez. Acusei o toque.
“Então, vai para
Angola. Mas porquê?”
“Isto aqui, não dá para viver”, retorquiu.
Aqui há umas três décadas atrás, num domingo de manhã, um
casal de crianças, ele tão embriagado que mal se aguentava nas pernas, bateu-nos à
porta e mostrou-nos um papelinho sarrabiscado com o nosso endereço.
“É aqui que vive o tio Manel?”, perguntou ela. Só tinham
aquele pedaço de papel e a roupa que traziam no corpo. O voo desde Luanda fora alucinante: o moço, habituado a espaços maiores, saltou por tudo quanto era
canto naquele avião.
A acalmia só se instalou quando as hospedeiras finalmente o prenderam no lugar e lhe
encheram o colo de garrafinhas de uísque e vinho do Porto.
Angola reapareceu-nos de novo, assim de repente, nas nossas
conversas há cerca de quatro anos, quando ocorreu a primeira machadada, dada lá
longe em Wall Street, no sistema capitalista global há muito fora de controlo.
As economias de muitos países, Portugal incluído, entraram em
velocidade de cruzeiro rumo ao desemprego, à precaridade e à ruína. À
vergonha.
E África acenou, mais uma vez, aos novos-desesperados com promessas de mel nas fontes, pão nas árvores
e dólares, muitos dólares, ao fim do mês.
“É uma oportunidade
de ouro mas só para quem sabe aproveitar”, disseram-me um dia, brilho estranho
plantado num olhar que já só enxergava para além do horizonte.
As despedidas, para quem cá vai ficando, foram o que mais
nos custou a habituar. “Até um dia destes”, respondi uma vez. Muito diferente
dos adeuses a alguém que vai para, sei lá, França ou Suíça: “Até ao Natal”
ou “Até agosto”.
Os regressos, esses são ainda mais estranhos. As conversas
mudaram um pouco de tom, resumem-se a breves sessões de pergunta e resposta que
acabam com sussurros, caretas e piscadelas:
“É pá, aquilo… tem que se lhe diga”, responderam-me aqui há
dias. “Mas vale a pena”.
“Mas uma pessoa safa-se lá ou não?” perguntei?
Só me respondeu aquele brilho estranho, plantado num olhar
que já só enxergava para lá do horizonte.