Mostrar mensagens com a etiqueta Reportagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Reportagem. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Baixo Tâmega acolhe a maior ecovia da região


A antiga linha ferroviária do Tâmega vai  acolher uma das mais longas ecopistas da região, com cerca de 42 km de extensão, assim que se concluírem as obras de reconversão da via-férrea desativada entre Amarante e Arco de Baúlhe, em Cabeceiras de Basto.

Atualmente já se encontra ativa a primeira fase deste projeto que resultou numa ecopista com cerca de 10km de extensão entre a cidade de Amarante e a estação de Chapa, na linha separatória com Celorico de Basto.

Projeto final prevê 42 km de ecovia. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


De acordo as duas autarquias de Basto, as obras de adaptação e expansão da ecopista decorrem “a bom ritmo” numa operação que é cofinanciada por fundos comunitários e que se insere na Rede Nacional de Ecopistas promovida pela REFER.

Em Celorico de Basto o projeto ocupa 25km do canal da antiga linha férrea para usos desportivos e lúdicos, fruto de uma intervenção que irá regularizar e pavimentar a via e ainda recuperar o património natural e arquitetónico que a rodeia.

A primeira intervenção, ao longo de 20km da via entre a estação de Lourido e a linha de demarcação com Cabeceiras de Basto, está em vias de conclusão segundo o município celoricense.

Quanto aos restantes 5km, que ligam Lourido à ecopista de Amarante, fonte do gabinete de comunicação daquela autarquia comunicou que a execução da obra só se realizará depois de conhecidos mais pormenores sobre a construção da barragem de Fridão, no rio Tâmega.

No concelho vizinho de Cabeceiras de Basto, o troço final, com cerca de 6km de extensão, será recuperado de forma similar através de um projeto avaliado em 850.600 euros. 

Ecopista de Amarante é um ponto de encontro da região

Inaugurada oficialmente em finais de abril de 2010, a nova ecopista de Amarante rapidamente se converteu num dos pontos de interesse mais procurados do concelho. Ali,  residentes e visitantes cruzam-se diariamente na prática de diversas atividades desportivas, nomeadamente atletismo e ciclismo.

 Ponto de encontro e de exercício. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


O trajeto desenrola-se ao longo da antiga via ferroviária que atravessa algumas das paisagens mais emblemáticas da região, tendo como pano de fundo a serra do Marão e a presença quase constante do rio Tâmega.

“Gosto de parar aqui e acolá e apreciar este quase-silêncio, onde só se escuta o rio e os sons da floresta”, diz Victor Costa, empresário de Amarante e utilizador assíduo da ecopista.

Um ávido desportista desde a sua juventude, o empresário explica que encontrou na pista o lugar ideal para a prática de atletismo, em particular para se preparar para provas de atletismo e BTT em que participa regularmente.

Por seu lado, Sérgio Magalhães e a sua esposa, Alice, utilizadores quase diários da via, dizem que o que mais lhes agrada é o sistema de iluminação instalado entre as estações de Amarante e Gatão, que lhes permite realizar passeios noturnos, a pé ou de bicicleta, longe do perigo das estradas.

“Antes de a pista abrir, íamos de vez em quando para a n210, entre Amarante e o Marco mas é uma estrada perigosa, especialmente à noite, porque tem pouca iluminação e muitas curvas sem visibilidade”, explicaram.

O troço da estrada nacional N210 entre Amarante e o Marco de Canaveses é um dos “segredos” mais bem guardados da região do Baixo Tâmega que, até à inauguração da ecopista, era o circuito de eleição para ciclistas e atletas da região.

O percurso, com cerca de 10km de extensão, serpenteia ao longo das margens da albufeira da barragem do Torrão que, graças à sua inclusão numa área de reserva natural e agrícola, foi poupado ao avanço, por vezes caótico, das zonas urbanizadas da região.

Próxima fase: recuperação das antigas estações

Entretanto a Câmara Municipal de Amarante, entidade gestora do primeiro troço da ecopista do Tâmega, lançou recentemente um concurso público para a adjudicação das obras de recuperação da antiga estação de Gatão, localizada a meio do percurso.

Estações vão ser recuperadas. Imagem: Paulo Alexandre Teixeira


Após a intervenção, o conjunto de edifícios da estação irá albergar uma série de serviços e valências orientados para os utilizadores da pista, nomeadamente casas de banho e um pequeno balneário.

A estação da Chapa, ainda em Amarante, também vai ser alvo de uma restauração similar mas como se encontra ainda habitada, o município terá que esperar até se concluir o processo de negociação com o atual residente.

A autarquia fez saber ainda que pretende recuperar, para o mesmo efeito, os edifícios que constituem a estação da cidade Amarante mas explicou que esse processo está ainda nas mãos da REFER e de um inquilino comercial daquele espaço.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pum, pum, pum e pum: uma história de bombos e tradição em Amarante


No concelho de Amarante há doze grupos de bombos tradicionais popularmente conhecidos como Zés-Pereiras. Um deles, integralmente feminino, cumpre com dedicação e grande esforço o legado musical enraizado desde a Idade Média na cultura popular portuguesa. É um fenómeno cultural pouco estudado mas muito apreciado por um povo que não larga mão da tradição.

Aquela moça alta olha para o velho relógio da torre do mosteiro de S. Gonçalo e rola os olhos para trás em desespero. Ainda falta uma hora para o fim e com num gesto que exala determinação, dá dois passos em frente, olhos nos olhos das suas companheiras. Pendurado ao seu peito está um enorme bombo tradicional onde começa a malhar, rápida e furiosamente.

O resto do grupo, vinte mulheres ao todo, segue-lhe o exemplo.

Maratona de três horas põe à prova a estamina física e mental
É a algazarra total no centro da cidade de Amarante no primeiro fim de semana de junho. São duas da manhã na Praça da República mas hoje, na primeira de três noites das festas da cidade, não há garantias de sono tranquilo para os residentes da zona histórica.

Pelo menos por mais umas horas. É que, em cumprimento da antiga tradição de honrar São Gonçalo, padroeiro da cidade, seis grupos de bombos tradicionais entraram em despique pouco depois do fogo-de-artifício da meia-noite. E nenhum deles está disposto a ser o primeiro a desistir. Há honra e orgulho a salvaguardar mas também já há quem desmaie de cansaço.

Entre as Rosas de Santa Maria, o primeiro grupo de bombos amarantino constituído integralmente por mulheres, ninguém cai para o lado ou desiste. Num canto da praça em frente ao Mosteiro de S. Gonçalo,  tocam de uma forma mais suave do que os seus competidores masculinos. A estratégia resulta, pois às três da manhã estão todas presentes quando vários homens já tinham saído de cena. Um, pelo menos, de ambulância.

No centro do círculo das vinte Rosas está a estudante universitária Eugénia Magalhães, de 22 anos, tocadora de caixa e uma das fundadoras do grupo. É a terceira na linha de gerações de tocadores de bombos da freguesia de Jazente onde, há cerca de 60 anos, o avô Abel fundou o primeiro grupo de Zés-Pereiras de Amarante.

Eugénia Magalhães e as Rosas de St. Maria
“Desde muito pequena que ando nos bombos, são as minhas férias de verão. Nasci no meio disto  tudo”, explica a jovem licenciada em Solicitadoria. “Mesmo em bebé, eu acompanhava a família nas deslocações por todo o país. Aliás, foi em Peniche que deixei de gatinhar e dei os meus primeiros passos durante uma atuação nas festas daquela cidade”.

Juntamente com a mãe, Maria de Fátima, fundou há cerca de dois anos o grupo onde tocam mulheres com idades entre os 10 e os 45 anos. “Era uma ideia antiga, a de formar um grupo de bombos só com mulheres, que foi sendo adiada ao longo dos anos. Mas em 2010 eu disse que tinha que ser naquele ano e que iríamos começar nas festas do junho, em Amarante”, conta.


E porquê uma formação só de mulheres? “O grupo surgiu com naturalidade porque somos uma freguesia onde há uma forte tradição de tocadores de bombos. As crianças, incluindo raparigas, aprendem desde  novas com os pais, muitos deles pertencentes a um dos vários grupos que temos em Jazente”, explica.
A prata da casa

Apesar de existirem registos com mais de cem anos sobre a presença de grupos de Zés-Pereiras nas festas a São Gonçalo só em 1949 é que surge o primeiro conjunto local pela mão de Abel Ribeiro, avô de Eugénia.

A partir daí, o número de grupos de bombos, uma das tradições musicais populares mais antigas a norte do rio Mondego, aumentou ao longo dos anos em Amarante. Hoje, só naquela pequena freguesia aninhada entre a serra da Aboboreira e o rio Ovelha, há três.

Em todo o concelho existem doze grupos que todos os anos percorrem Portugal de lés-a-lés em nome da música popular portuguesa. E quase todos traçam as suas origens ao primeiro formado por Abel Ribeiro.

Bombos "Amigos da Borga", Lufrei
“De uma forma ou outra, praticamente todos os mestres que vão tocar hoje nas festas do junho começaram as suas carreiras connosco, em Jazente”, explica Eugénia Magalhães.

Tradição medieval

Embora a tradição de tocadores de bombos em festas e romarias se perca na memória e nos poucos registos escritos sobre o tema, o certo é que os Zés Pereiras e os seus ruidosos bombos são parte integral de qualquer celebração religiosa ou civil.

A sua origem (também conhecidos como Zambumbos) tem sido pouco estudada mas há referências que aparecem, pontualmente, em trabalhos sobre a música popular portuguesa.

Zés-Pereiras de S. Torcato, Guimarães, em festa religiosa no séc. XIX - DR

Acredita-se, por exemplo, que a génese dos atuais grupos de bombos está ligada ao fenómeno das “bandas-de-pífaro” do século XIX, formação musical muito popular na Europa na época e cujo repertório inicial estava ligado, essencialmente, ao das bandas militares.

Contudo, há indícios de que a história deste tipo de expressão musical popular pode ir mais atrás, até à Idade Média.

“Há, sem dúvida, uma ligação entre os atuais Zés-Pereiras, as charangas medievais e o conceito de música alta que em Portugal sobreviveu às alterações dos gostos musicais do resto da Europa”, explica António Patrício, autor e historiador da região do Baixo Tâmega.

O estilo, em que grupos de charameleiros tocavam instrumentos rudimentares (trompetas, tambores, sacabuxas, charamelas e flautas) ganhou a designação pela sua alta sonoridade, uma característica ideal para os grandes e pequenos eventos ao ar livre.

Considerados primitivos e de mais fácil execução, os instrumentos, e os sons que produziam, eram tidos como o oposto da música baixa, um estilo mais suave e de fraca amplitude sonora considerado mais elegante, próprio de gente fina e com bom gosto.

“A música alta era, e ainda é, o estilo musical do povo porque os instrumentos são fabricados de materiais que estão à mão. Peles e madeira, essencialmente. São fáceis de aprender e de utilizar e, portanto, sobreviveram até aos dias de hoje”, explica o autor amarantino.

E o futuro?

Neste verão, e tal como tem acontecido nos últimos 60 anos, não há descanso para os Zambumbos de Amarante. O de Jazente, com cerca de 50 elementos, tem todos os fins-de-semana ocupados até setembro.

“Vamos a Peniche, a Viana, Bilhó (Vila Real), Alentejo, Algarve e, no passado, já fomos chamados a França, Brasil e Espanha”, diz Eugénia Magalhães. “Aliás notamos que temos mais atuações este ano”, sublinha.

E afasta qualquer dúvida sobre a falta de participação dos jovens nos grupos de bombos da região: “A tradição é muito forte e sempre houve uma atração pela atividade por parte dos mais jovens. Posso dizer que, pelo menos da minha parte, e mesmo que me tenha licenciado, que nunca irei desistir dos bombos. Esta é a minha vida”.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Reportagem: Tripas aos Molhos, um capítulo na história de Vila Real


Sobejamente aduladas pelos apreciadores do prato simbólico de tudo quanto é Norte, as tripas aos molhos de Vila Real são uma especialidade gastronómica que encerra em si vários capítulos da história desta cidade e do engenho do povo transmontano face à dureza duma vida em isolamento no interior do Portugal "profundo".


Direitos Reservados - cortesia Restaurante Chaxoila

A gastronomia transmontana está intimamente ligada às inúmeras estórias anónimas de homens e mulheres que, durante anos a fio, desafiaram os rigores de um existência insulada e encerrada entre montanhas e que se faziam à estrada, quer fizesse sol, quer caísse neve, em direção à capital de Trás-Os-Montes, confortavelmente aninhada entre os sopés das serras do Marão e do Alvão.

Falar dos comeres e beberes desta região é falar essencialmente da mulher transmontana que na sua cozinha, entre potes de ferro e o fumo das lareiras, puxou pela imaginação e pelo engenho anos a fio para fazer o melhor que podia do que a terra, pouco dada a grandes culturas, oferecia.

E apesar de ser possível, hoje em dia, consultar diversos livros dedicados ao tema, a história tem mais sabor quando é contada por um dos seus maiores ícones: Dona Fernanda Brito, fundadora do restaurante Chaxoila, onde nasceu, há mais de seis décadas, o prato das tripas aos molhos.

Hoje com 87 anos de idade,  Fernanda "Chaxoila" lembra-se claramente de Roselas, na freguesia de Borbela, como um lugar ermo por onde passava um simples caminho no que é hoje entrada norte da cidade, na estrada nacional N2, entre Chaves e Vila Real.

"Fiquei com aquela imagem na cabeça das tripas enroladas (de Ponte de Lima)"
- foto por Paulo Alexandre Teixeira


“Em 1947 isto era praticamente um monte atravessado por um carreiro de terra batida. Era tão ermo que nem capoeira tinha para as galinhas, elas andavam por aí à solta”, conta, à mesa da sua casa, a escassos metros do restaurante que fundou e que ainda hoje existe.

Pouco depois de se casar, a progenitora das tripas aos molhos, natural de Braga, abriu há precisamente 64 anos, uma pequena mercearia de aldeia que granjeou grande importância entre os habitantes da freguesia e viajantes.

Estrategicamente localizada, a venda rapidamente se transformou numa taberna que chegou a servir, semanalmente, uma pipa de vinho (cerca de 500 litros), centenas de quilos de pão e broas, ovos e outros produtos a um leque cada vez maior de clientes.

“E uma coisa puxou pela outra: pediam-me uns petiscos para acompanhar o copo e lá fomos arranjando o que tínhamos à mão. À minha primeira receita da casa chamei de Ovos da Índia, quem eram simplesmente ovos cozidos em água com cebolas. Os clientes adoravam o sabor e achei piada de que se admiravam com a cor que a cebola dava ao ovo, que ficava um pouco acastanhado”.

Foi durante uma visita a Ponte de Lima que viu pela primeira vez tripas enfarinhadas, um prato local em que as tripas de vitela eram servidas enroladas e recheadas com farinha condimentada.

“Fiquei com aquela imagem na cabeça. Meses mais tarde, estava a falar com uma pessoa que normalmente me vendia carne e que ia deitar fora umas tripas de vitela, muito sujas. Pedi-lhas e ela até me agradeceu”, explica ainda D. Fernanda.

Durante dois dias, encerrada na cozinha que ao longo de quase 50 anos de trabalho nunca viu a presença doutra cozinheira, a “Chaxoila” laborou à volta das tripas, que foram lavadas várias vezes em água a ferver e diligentemente raspadas.

Lembrando-se da viagem a Ponte de Lima, experimentou enrolar umas tripas mais grossas em presunto, chouriço e um pouco de salsa. “E depois, fiz-lhe um lacinho com uma tripa mais fininha. Foi um sucesso enorme no primeiro dia em que as servi”, relembra.

DR- cortesia Restaurante Chaxoila

Incentivada pelo sucesso do prato, a taberna ganhou o nome de Chaxoila e transformou-se na casa de pasto e dormidas mais famosa de Vila Real. Ao longo dos anos, o pitéu foi copiado e reproduzido em dezenas de restaurantes da região mas Fernanda Brito guardou para si uma receita do “molho especial” que fazia as suas tripas aos molhos únicas na região.

“Custou-me contar o segredo quando finalmente passei o restaurante por motivos de saúde. Aliás, acho que a primeira proprietária não mereceu que lho contasse. Mas os atuais donos do Chaxoila merecem porque gosto muito do que fizeram com o lugar”, conclui.

Ainda no mesmo local de há 60 anos, o Chaxoila é hoje propriedade do empresário local Fernando Santos e da sua família, o terceiro proprietário que o restaurante conheceu desde que Fernanda Brito deixou as lides da cozinha.

Apesar de ser um local muito diferente do original Chaxoila, o restaurante é ainda conhecido como a “Catedral” das tripas aos molhos que, às quartas e sábados, continuam a adornar o cardápio ao lado de outros pratos típicos transmontanos como a mão de vitela com grão-de-bico (outra “invenção” de Fernanda Brito), carne à Chaxoila e leite-creme queimado à moda antiga.

Tripas, vitela e doces da casa fazem ainda parte do cardápio do Chaxoila do século XXI
- foto por Paulo Alexandre Teixeira

“Tornamos o restaurante um pouco maior e aproveitamos o espaço da esplanada para sentar mais dezoito pessoas”, explica José Carlos Santos, atual gerente, durante uma hora de almoço em que os clientes faziam, pacientemente, fila à espera de uma mesa.

“Ainda hoje vem gente de longe que se lembra do Chaxoila de antigamente e que à conta das tripas, relembram inúmeras histórias da Vila Real daqueles tempos”, conclui.

Paulo Alexandre Teixeira